ESTREIA–Trilogia “As Mil e Uma Noites” começa com retrato do Portugal da crise e austeridade

quarta-feira, 11 de novembro de 2015 16:06 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Esses são tempos de uma crise econômica que assola o mundo e consome especialmente os países mais pobres da Europa. São também tempos de incerteza, e o cineasta português Miguel Gomes (“Tabu”) não poderia encontrar uma forma mais apropriada de retratar tudo isso. Seu épico da austeridade e crise “As Mil e Uma Noites” é um filme de dúvidas e indagações, e isso já se manifesta logo no começo da primeira parte da trilogia, “Volume 1: O Inquieto”.

Numa das primeiras cenas do longa, Gomes e sua equipe aguardam o momento de começar as filmagens até que o diretor simplesmente sai correndo, fugindo deprimido diante do gigantismo do projeto que está se propondo a levar adiante. Essa metalinguagem é divertida e remete ao seu “Aquele Querido Mês de Agosto” (2008), segundo longa do cineasta, que é uma espécie de filme com making of embutido.

Esse momento inicial é também a própria percepção dele de suas incertezas diante daquilo que virá. Será ele capaz de dar conta do projeto? Ao mesmo tempo, como diz, não é possível filmar em Portugal, sem falar do momento sombrio que o país atravessa. Conseguirá fazer um épico de seis horas sobre a crise? Afinal, conseguiu.

A referência ao mítico livro “As Mil e Uma Noites” serve, como explicita um letreiro no começo de cada filme, apenas como um estruturador --afinal, esta não é uma adaptação da obra. A rainha persa Xerazade (Crista Alfaiate) e sua tentativa de fugir do destino trágico por meio da narração estão lá, mas as histórias que ela conta estão diretamente ligadas a Portugal contemporâneo, a crise econômica e suas implicações culturais e morais.

O tom é predominantemente satírico, carregado de cinismo e humor português, mas, aos poucos, a melancolia --especialmente no último longa da série-- começa a tomar conta. Na tela, vemos pessoas enfrentando momentos de dificuldade e falta de perspectivas, especialmente num início documental deste volume 1, que acompanha os trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo que perdem seus empregos com o fechamento do local.

Essa narrativa é entrecortada com a de um apicultor que luta contra a invasão de moscas asiáticas que ameaçam dizimar suas abelhas, e que não pode contar com os bombeiros, porque eles não têm nem equipamento ou pessoal especializado para lidar com isso. A questão torna-se uma metáfora e uma denúncia sobre a precária condição de Portugal no momento.

Depois deste prólogo, o primeiro episódio narrado por Xerazade é uma picante sátira envolvendo um grupo de políticos e um spray capaz de lhes garantir uma ereção duradoura. Nele, figurões europeus chegam montados em camelos e dizem aos políticos portugueses que eles devem cortar gastos. A questão muda, no entanto, quando encontram um feiticeiro (Basirou Diallo), que lhes fornece o líquido milagroso.

O conto seguinte é baseado num fato real, sobre uma mulher cujo galo foi levado ao tribunal porque acordava a vizinhança muito cedo com seu canto. É aqui que Gomes começa a usar a fantasia para cobrir as lacunas das quais o realismo não daria conta. É exatamente nesses momentos que o absurdo da realidade se concretiza de maneira mais evidente. A história do galo vai se deparar com uma de um amor contrariado, cuja reencenação por um trio de crianças acena para a nostalgia da infância de um dos curtas mais divertidos do diretor, “Kalkitos” (2002), com um resultado que afeta toda uma comunidade.

Há também uma baleia encalhada que faz lembrar o crocodilo de “Tabu”, cujo destino parece fantasia, mas não poderia ser mais real.   Continuação...

 
Diretor português Miguel Gomes no festival de Berlim. 18/2/2012 REUTERS/Tobias Schwarz