11 de Novembro de 2015 / às 17:28 / em 2 anos

ESTREIA–Trilogia “As Mil e Uma Noites” começa com retrato do Portugal da crise e austeridade

Diretor português Miguel Gomes no festival de Berlim. 18/2/2012 REUTERS/Tobias Schwarz

SÃO PAULO (Reuters) - Esses são tempos de uma crise econômica que assola o mundo e consome especialmente os países mais pobres da Europa. São também tempos de incerteza, e o cineasta português Miguel Gomes (“Tabu”) não poderia encontrar uma forma mais apropriada de retratar tudo isso. Seu épico da austeridade e crise “As Mil e Uma Noites” é um filme de dúvidas e indagações, e isso já se manifesta logo no começo da primeira parte da trilogia, “Volume 1: O Inquieto”.

Numa das primeiras cenas do longa, Gomes e sua equipe aguardam o momento de começar as filmagens até que o diretor simplesmente sai correndo, fugindo deprimido diante do gigantismo do projeto que está se propondo a levar adiante. Essa metalinguagem é divertida e remete ao seu “Aquele Querido Mês de Agosto” (2008), segundo longa do cineasta, que é uma espécie de filme com making of embutido.

Esse momento inicial é também a própria percepção dele de suas incertezas diante daquilo que virá. Será ele capaz de dar conta do projeto? Ao mesmo tempo, como diz, não é possível filmar em Portugal, sem falar do momento sombrio que o país atravessa. Conseguirá fazer um épico de seis horas sobre a crise? Afinal, conseguiu.

A referência ao mítico livro “As Mil e Uma Noites” serve, como explicita um letreiro no começo de cada filme, apenas como um estruturador --afinal, esta não é uma adaptação da obra. A rainha persa Xerazade (Crista Alfaiate) e sua tentativa de fugir do destino trágico por meio da narração estão lá, mas as histórias que ela conta estão diretamente ligadas a Portugal contemporâneo, a crise econômica e suas implicações culturais e morais.

O tom é predominantemente satírico, carregado de cinismo e humor português, mas, aos poucos, a melancolia --especialmente no último longa da série-- começa a tomar conta. Na tela, vemos pessoas enfrentando momentos de dificuldade e falta de perspectivas, especialmente num início documental deste volume 1, que acompanha os trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo que perdem seus empregos com o fechamento do local.

Essa narrativa é entrecortada com a de um apicultor que luta contra a invasão de moscas asiáticas que ameaçam dizimar suas abelhas, e que não pode contar com os bombeiros, porque eles não têm nem equipamento ou pessoal especializado para lidar com isso. A questão torna-se uma metáfora e uma denúncia sobre a precária condição de Portugal no momento.

Depois deste prólogo, o primeiro episódio narrado por Xerazade é uma picante sátira envolvendo um grupo de políticos e um spray capaz de lhes garantir uma ereção duradoura. Nele, figurões europeus chegam montados em camelos e dizem aos políticos portugueses que eles devem cortar gastos. A questão muda, no entanto, quando encontram um feiticeiro (Basirou Diallo), que lhes fornece o líquido milagroso.

O conto seguinte é baseado num fato real, sobre uma mulher cujo galo foi levado ao tribunal porque acordava a vizinhança muito cedo com seu canto. É aqui que Gomes começa a usar a fantasia para cobrir as lacunas das quais o realismo não daria conta. É exatamente nesses momentos que o absurdo da realidade se concretiza de maneira mais evidente. A história do galo vai se deparar com uma de um amor contrariado, cuja reencenação por um trio de crianças acena para a nostalgia da infância de um dos curtas mais divertidos do diretor, “Kalkitos” (2002), com um resultado que afeta toda uma comunidade.

Há também uma baleia encalhada que faz lembrar o crocodilo de “Tabu”, cujo destino parece fantasia, mas não poderia ser mais real.

Trabalhando com Sayombhu Mukdeeprom, diretor de fotografia de diversos filmes de Apichatpong Weerasethakul (como “Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas”), Gomes faz um painel de um Portugal estagnado e de mãos atadas diante do movimento do capitalismo contemporâneo.

“As Mil e Uma Noites” confirma o talento e a criatividade de seu autor, que surpreende a cada novo episódio. Se em “Tabu” ele fazia uma crítica ao projeto colonial, olhando para o passado de seu país e da Europa no geral, aqui, no entanto, investiga a matéria histórica do presente, algo bem mais complicado de lidar.

Embora exista um ganho inegável em assistir à trilogia de uma única vez, como foi oferecido na programação da recente Mostra Internacional de São Paulo, não há prejuízo de compreensão em assistir a cada filme separadamente. Os próximos volumes, 2 e 3, que devem estrear nas próximas semanas, têm os subtítulos “O Desolado” e “O Encantado”, mas há maior proveito se forem vistos na ordem.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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