18 de Novembro de 2015 / às 20:05 / em 2 anos

ESTREIA-“Chatô, o Rei do Brasil” supera maldições de sua produção e surpreende

SÃO PAULO (Reuters) - Desde o início, grandioso. No decorrer, um escândalo. Durante muito tempo, uma lenda era sua existência. Até agora, fonte de piadas. Ao longo de 20 anos e mais outros que virão, a maior polêmica do meio cinematográfico brasileiro. Mas o fato é que, hoje, “Chatô, o Rei do Brasil” (2015) é uma realidade.

O filme, finalmente, apresenta-se ao julgamento público, assim como no delírio televisivo de seu protagonista, o magnata da mídia Assis Chateaubriand (Marco Ricca), ao ser lançado em circuito comercial – curiosamente, neste 19 de novembro, Dia da Bandeira, símbolo nacional que tem destaque em uma cena específica, ganhando amplos significados.

Espécie de “loira do banheiro do cinema nacional”, o projeto foi iniciado em 1995, quando o ator Guilherme Fontes resolveu se arriscar como realizador em uma adaptação cinematográfica do livro homônimo de Fernando Morais, escritor que já teve suas obras levadas à tela em “Olga” (2004) e “Corações Sujos” (2011), respectivamente, de Jayme Monjardim e Vicente Amorim.

Foram captados 8,6 milhões de reais inicialmente, via leis de incentivo da época. Mas o orçamento esgotou-se antes do fim das gravações e toda uma discussão sobre o mau uso de verbas públicas foi levantada, baseada em contraditório impasse: com o caso ainda em tramitação no Tribunal de Contas da União, o diretor foi acusado na prestação de contas por não entregar o produto final, sendo que todos esses processos em que a produção esteve envolvida por mais de uma década, consequentemente, interromperam sua finalização e levaram à dúvida se realmente existia um filme.

Todo esse contexto envolveu o projeto em uma aura de expectativa e descrédito que levam facilmente a um pré-julgamento da obra que, em si, merece uma análise mais centrada em seus aspectos artísticos do que administrativos.

Os debates que suscitam como sintoma ou exceção do modelo de produção cinematográfica brasileira, consequência de uma megalomania ou perseguição a Fontes, são importantes e devem ser abordados em outro contexto. Aqui o foco é no próprio longa, que revela-se uma grata surpresa. Longe da perfeição, “Chatô...” gera tanto impacto quanto certa admiração por arriscar-se.

Trata-se da cinebiografia mais ousada do cinema nacional, não apenas em sua estrutura, como também na forma como aborda seu retratado, mais como demônio do que santo, porém, sobretudo como um visionário. A antropofagia da primeira cena já prenuncia que o filme pretende “devorar” não só a figura de Chateaubriand, em seus feitos, desmandos, amores e desafetos, mas igualmente a imprensa, o próprio Brasil e, por que não, a arte.

A alucinação presente no livro é potencializada ao ter os recursos audiovisuais à sua disposição e instituída como assinatura da obra, sendo usada pela direção tanto como base de suas opções estéticas e narrativas quanto como desculpa para possíveis e existentes falhas.

Demora alguns minutos até a viagem alucinógena, entrecortada entre o subconsciente do personagem e os principais acontecimentos de sua vida, começar a fazer sentido para o público. Fica claro que qualquer linha do tempo é dissolvida neste caso para dar lugar a um mosaico de informações e impressões que reconstruam Assis, como pessoa privada e de grande poder na comunicação, empresariado e política brasileiros – e não por imposições dos vários problemas de produção.

Só quando se dá conta e se familiariza rapidamente com isso, o espectador se envolve e acompanha o fluxo e exame de consciência do protagonista, conduzido pelo programa de TV que traz o “julgamento do século”, com a presença de sua família, ex-funcionários, como o não tão fictício Carlos Rosenberg (Gabriel Braga Nunes), e até o falecido presidente Getúlio Vargas (Paulo Betti), entre recordações de sua infância, de como criou seu próprio jornal, de sua influência na Revolução de 1930, entre outras coisas.

Por outro lado, esse ziguezague narrativo do roteiro de Fontes, João Emanuel Carneiro, hoje consagrado autor de novelas, como “Avenida Brasil” (2012), e Matthew Robbins, que gera interesse inicial, cansa ao final de seus 102 minutos de duração. O ritmo alucinado prejudica também o aprofundamento de algumas das várias subtramas apontadas pelo caminho, a exemplo das suas ex-mulheres vividas por Letícia Sabatella e Leandra Leal.

É óbvio que a amplitude do personagem, dono da rede de jornais Diários Associados, da rádio e da TV Tupi, senador, imortal da Academia Brasileira de Letras e mecenas fundador do MASP, dificulta o desenvolvimento de todas as suas facetas. Contudo, ressente-se por certas lacunas, especialmente, um olhar mais atento ao início da televisão, já que é o pioneiro do meio no país, embora a homenagem esteja em seu delirante juízo final.

A ideia de um “Cidadão Kane” (1941) à brasileira vai além da semelhança entre dois controversos magnatas da imprensa – lembrando que Kane é inspirado no norte-americano William Randolph Hearst. E, assim como Morais em seu texto, Fontes bebe da obra-prima de Orson Welles, na estrutura de flashbacks e na crítica à mídia como “quarto poder”, em todo o seu poderio de manipulação.

Há referências a outros clássicos, de Federico Fellini a Bob Fosse, mas todos os elementos são carnavalizados, em uma espécie de farsa tropicalista, que guarda muitas reverências às chanchadas. Se não se pode dizer que é inovador, nem na época de sua concepção, ainda no início da Retomada, é diferente de quase tudo que é visto nos filmes nacionais comerciais, atuais ou de outrora.

O tom farsesco ajuda a compreender o aparente exagero da interpretação de Marco Ricca, que é condizente com a construção de um personagem voraz em seu apetite sexual e desejos de poder. Se o mesmo não se pode dizer de Paulo Betti, não é apenas pelo estranhamento dos excessos do sotaque e sim por não captar a grandiloquência de Getúlio. De resto, entre atuações aquém do potencial de alguns atores e boas performances, o destaque é para Andréa Beltrão, que, na pele de Vivi Stuart/Sampaio, cria a grande articuladora das ações da trama.

Além de um granulado notável em planos específicos, somente a aparência juvenil de Leandra Leal e Gabriel Braga Nunes em algumas cenas e a presença de atores já falecidos, como Walmor Chamas e José Lewgoy, entregam a idade do filme. Há uma uniformidade visual que não demonstra diferenças entre as duas fases de filmagens, ocorridas entre 1998 e 2004, nem deixam aparente um abismo técnico entre o longa e as produções de agora.

Interpretando o apresentador do onírico julgamento de Chateaubriand, ora como uma espécie de Chacrinha, ora como um não tão identificável Silvio Santos jovem, Guilherme Fontes foi também julgado por todos esses anos e assim continuará – e as conclusões de cada espectador podem ser divergentes sobre o homem e em relação a sua obra. Não podem acusá-lo, no entanto, de não fazer um cinema de autor, sendo ou não uma falácia.

"Chatô...” é um filme a se decifrar ou desmascarar em análises posteriores e novas fruições, o que pode ser tanto um problema quanto uma virtude.

(Por Nayara Reynaud, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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