ESTREIA–Biografia “Steve Jobs” retrata o protagonista como homem cruel

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016 19:20 BRST
 

(Reuters) - “Steve Jobs”, de Danny Boyle, mergulha num dos mitos de nosso tempo, o homem por trás da Apple, do Macintosh, do iMac. E o detalhe de que Jobs não era engenheiro, designer, nem programador e dependeu, para essas e outras criações, do trabalho de outras pessoas, ilustra à perfeição o quanto sua fama deve-se, também, a um intensivo e eficiente manejo do marketing pessoal.

É justamente este tom ambíguo, entre a admiração e a repulsa em relação ao seu retratado, um dos principais méritos do filme. Aliado à interpretação intensa de Michael Fassbender, que consegue fazer esquecer que não tem qualquer semelhança física com o verdadeiro Jobs, entronizando, no entanto, numa chave que permite captar sua insaciável energia e permite olhá-lo sempre despertando uma indissociável mistura de afeto e rejeição.

No recente Globo de Ouro, no entanto, Fassbender, apesar de indicado, foi esnobado da premiação, cabendo dois merecidos troféus para o roteiro de Aaron Sorkin e para a atriz Kate Winslet, que interpreta Joanna Hoffman, chefe de marketing da Apple, braço direito de Jobs e sua consciência e face humana de um modo que ninguém mais tem proximidade o bastante para conseguir.

Partindo de uma biografia autorizada de Jobs (falecido em 2011), escrita por Walter Isaacson, o roteirista Sorkin recicla, de certo modo, a fórmula que utilizou para dissecar outra personalidade destes tempos digitais, Mark Zuckerberg, o pai do Facebook, em “A Rede Social”.

Recorrendo a um mesmo universo ditado pela velocidade da comunicação e a verborragia, Sorkin sai-se melhor, no entanto, porque extrai, aqui, um estudo de personalidade mais preciso.

Evitando uma estrutura narrativa cronológica, o filme concentra-se em três momentos cruciais da trajetória profissional de seu protagonista, focalizando o lançamento de três produtos: o primeiro Macintosh pessoal, em 1984; o NeXT, o computador em forma de cubo voltado à área educacional, em 1988, quando Jobs havia sido dispensado pela Apple; e o iMac, em 1998, que marca sua volta triunfal à empresa que havia ajudado a fundar.

O filme escava os bastidores de cada um destes lançamentos, lançando um olhar bastante cirúrgico das relações entre Jobs e seus colaboradores diretos, que ele espinafrava cruelmente, como seu amigo de adolescência e parceiro comercial Steve Wozniak (Seth Rogen) e o programador Andy Hertzfeld (Michael Stuhlbarg).

Na preparação destes eficientes shows de marketing, fica muito claro o papel de Jobs como o maestro da orquestra, uma imagem que ele mesmo usa, ressaltando que “não tocava qualquer instrumento”.

Os verdadeiros criadores estavam ao seu lado mas, longe de sua batuta impiedosa, talvez não chegassem tão longe.   Continuação...

 
Quadro em homenagem a Steve Jobs em Manila, Filipinas 14/10/2011  REUTERS/Romeo Ranoco