ESTREIA-Drama turco indicado ao Oscar denuncia opressão feminina

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016 16:25 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Um dos cinco candidatos ao Oscar de filme estrangeiro 2016, o drama “Cinco Graças” retrata a sufocante situação da mulher na Turquia, focalizando a jornada de cinco irmãs adolescentes numa pequena cidade do interior.

Dirigido e co-roteirizado pela cineasta estreante Deniz Gamze Ergüven, o filme começa com uma bela sequência na praia. No último dia do ano escolar, as irmãs Sonay (Ilayda Akdogan), Ece (Elit Iscan), Selma (Tugba Sunguroglu), Nur (Doga Zeynep Doguslu) e Lale (Günes Sensoy) dispensam o transporte escolar e voltam para casa a pé, junto ao mar. São acompanhadas pelos colegas meninos, com quem brincam na água, todos ainda de uniforme.

No repressivo ambiente interiorano, a inocente aventura ganha ares de escândalo. “Denunciadas” por uma vizinha, que pintou a brincadeira como se tratasse de um jogo sexual, as meninas, que são órfãs, são retiradas da escola e aprisionadas em casa por seus guardiões, a avó (Nihal G. Koldas) e o tio Erdol (Ayberk Pekcan).

A partir dali, grades são colocadas nas janelas e seus figurinos drasticamente alterados, para atender à rígida moral islâmica. As meninas não podem manter outras atividades que aprender a cozinhar, costurar e bordar, as únicas consideradas apropriadas a futuras esposas e mães.

Apesar de sua pouca idade, logo seus tutores se encarregam de procurar casamentos para elas, nos quais, evidentemente, elas não terão qualquer voz ativa.

Contrastando com a dureza de seu confinamento, a própria beleza e desabrochar, inclusive sexual, das meninas bate na tela com força, assim como sua luta por pequenas brechas que possam dar vazão a sua energia represada.

O afeto entre elas é a força que alimenta uma cumplicidade nas pequenas escapadas de Sonay para ver o namorado e na insólita aventura coletiva para assistir a um jogo de futebol –esta uma das sequências mais inspiradas do filme.

Equilibrando este jogo entre repressão e delicadeza, a diretora percorre temas espinhosos, como o incesto e a violência familiar, fugindo do risco de maniqueísmo com a apresentação de figuras masculinas positivas, como o jovem motorista de caminhão Yasin (Burak Yigit).

Mais de 30 anos após “Yol”, do diretor Yilmaz Güney, Palma de Ouro em Cannes em 1982, uma outra cineasta turca renova a discussão sobre a condição feminina naquele país, atualmente varrido por uma onda conservadora sob a presidência de Recep Tayyip Erdogan, que já declarou ser “contra a natureza tratar homens e mulheres em pé de igualdade”.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

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