ESTREIA–Em “Boa Noite, Mamãe”, diretores fazem alegoria do nazismo na Áustria

quarta-feira, 9 de março de 2016 17:00 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Há um horror sutil que ronda “Boa Noite, Mamãe” o tempo todo. Os diretores e roteiristas austríacos Severin Fiala e Veronika Franz constroem um suspense eficiente na medida em que desviam o foco, enganam seu público e resolvem o imbróglio não como quem tira um coelho inesperado da cartola, mas como quem cuidadosamente, cena após cena, deixa que pistas se acumulem até a revelação final - que pode surpreender, mas está totalmente em sintonia com o que se viu antes.

Os gêmeos Lukas e Elias (Lukas e Elias Schwartz) vivem numa sofisticada casa isolada numa região da Áustria. Sua mãe (Susanne Wuest) acabou de voltar do hospital, onde passou por uma operação séria e grande, e está com o rosto coberto de ataduras – mas mesmo assim, com certo esforço, ela tenta cuidar dos garotos.

Ela, no entanto, está cada vez mais solitária. Os meninos têm um ao outro e seus passatempos. Entre uma brincadeira e outra, encontram tempo para fazer algumas coisas mais bizarras: como colecionar insetos e colocar um monitor de bebê debaixo do travesseiro da mãe, ou explorar crânios em algo que parece uma cova coletiva.

A relação entre a mãe e os filhos é fria – pouco conversam e, quando o fazem, é quase sempre num tom de ataque e defesa. Ela é mandona, mas eles também são. Às vezes, ela é vulnerável, eles, não. Ela, de vez em quando, chega a ignorar um deles – o que lhes causa perplexidade, e os faz questionar o que aconteceu com sua mãe no hospital. Quando a paranoia se instala, eles se perguntam se essa mulher (cujo o rosto nunca veem) é mesmo sua mãe.

E assim, Fiala e Franz seguram boa parte dos 100 minutos de “Boa Noite, Mamãe”, que pode ser lido como uma crônica sobre a maternidade, sobre os laços de família, o luto e a melancolia. Mas é muito pouco para um filme que pode oferecer muito mais. Aprendendo uma lição de Michael Haneke, a dupla de diretores leva para o ambiente doméstico um horror e um trauma histórico. Eles não chegam ao ponto da perversidade do diretor de “A Fita Branca”, um filme com o qual este tem muito a ver, mas conseguem ser bem cruéis.

Bem se sabe que a Áustria foi um dos países mais entusiastas do nazismo e, ao contrário da Alemanha, levou anos para encarar essa ferida de frente e discuti-la. Isso só aconteceu cerca de 20 anos atrás, ou seja, por meio século, os horrores que pesavam na consciência coletiva foram varridos para debaixo do tapete – algo que se sabia existir mas custou-se a confrontar. Uma questão debatida até hoje é se a “anexação” do país ao Reich alemão foi voluntária ou forçada.

Nesse sentido, “Boa Noite, Mamãe” é uma alegoria bela e poderosa sobre a cegueira histórica materializada na teimosia dos personagens. Ao final, a revelação não soa como uma reviravolta à la M. Night Shyamalan, mas como um confronto necessário por conta da exaustão causada até então. Nesse momento, estão todos tão desgastados que, finalmente, encarar o verdadeiro problema de frente é a única coisa que lhes resta. Mas ainda fica a pergunta: eles estão preparados para isso?

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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