ESTREIA–Mohsen Makhmalbaf apresenta uma fábula política em “O Presidente”

quarta-feira, 9 de março de 2016 17:10 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Em “O Presidente”, o iraniano Mohsen Makhmalbaf - premiado em Cannes em 2001 por “A Caminho de Kandahar” – faz uma parábola política repleta de boa vontade, embora às vezes ingênua. Exibido numa mostra paralela no Festival de Veneza, em 2014, ao contrário do típico cinema meditativo iraniano, aqui o que vemos é uma sátira do poder e da sede cega provocada por este.

O filme começa com um envelhecido ditador (interpretado pelo georgiano Mikheil Gomiashvili) de um país sem nome mostrando ao seu pequeno neto (Dachi Orvelashvilli) o que é o poder. Ao seu gosto, manda ligar e desligar a energia elétrica da cidade, deixando toda a população no escuro simplesmente para mostrar que pode. A partir de um único gesto, se diz muito. Ele pode tudo, quando bem quiser.

Porém, quando pede para a energia ser religada, isso não acontece: a Revolução chegou! Tratado por todos como Sua Majestade, ele então obriga toda sua família a fugir, mas o neto se recusa, pois os dois são muito apegados. Simbolicamente, o menino funciona como a materialização do infantilismo que governa os mandos e desmandos do ditador. Quando são abandonados e começam sua própria fuga, acabam num vilarejo, onde o protagonista troca de roupa com um barbeiro e foge em busca de uma prostituta (la Sukhitashvili) que conheceu na juventude.

Makhmalbaf – assinando o roteiro com sua mulher, a também cineasta Marziyeh Meshkiny – faz de “O Presidente” uma alegoria que tanto vale para as ditaduras instauradas nas pequenas repúblicas da ex-União Soviética como para o mundo árabe – estas, segundo o diretor, sua verdadeira inspiração. É, ao mesmo tempo, um filme didático, repleto de boas intenções, mas exagerado em seus ensinamentos e sua pouca sutileza.

Sua mensagem sobre a corrupção do poder e, especialmente, da tirania é necessária, mas óbvia. Assim como o modo como ele retrata a Revolução: haverá um inevitável derramamento de sangue promovido por um povo oprimido e traumatizado.

Na sua fuga, o ditador e o neto acabam ao lado de um grupo de prisioneiros políticos que ilustram a variedade do espectro de posicionamentos. É mais um dos momentos exageradamente didáticos do longa que, por natureza, fala de um assunto bastante próximo ao nosso tempo, e, por isso mesmo, acaba enfraquecido diante da força do mundo real.

Crianças são uma presença constante na obra do cineasta, mas o menino aqui acaba soando como um pretexto para fazer questionamentos simples que tentam ganhar ares mais profundos: O que é morte? O que é tortura? A presença do garoto acaba reduzida a apenas isso, fazer perguntas, e, com o tempo, “O Presidente” vai se esvaziando de seu potencial crítico.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

 
Diretor Makhmalbaf e ator Orvelashvili posam para lançar "O Presidente" em Veneza. 27/8/2014.  REUTERS/Tony Gentile