ESTREIA–Michael Caine e Harvey Keitel sustentam trama existencial de “A Juventude”

quarta-feira, 30 de março de 2016 16:20 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - O cineasta italiano Paolo Sorrentino repete, em parte, o estilo elegante de “A Grande Beleza” (Oscar de melhor filme estrangeiro em 2014) em “A Juventude”, uma produção internacional com elenco idem, falada em inglês e que teve uma indicação ao Oscar de trilha sonora (David Lang).

Justiça seja feita: Sorrentino não tem medo da estilização nem do artifício – e nisso ele segue as pegadas de seu mestre assumido, Federico Fellini. Sorrentino não é Fellini, mas tem suas qualidades. Cria suas histórias com apego pela escritura, diálogos de efeito, grandes atores e um apuro visual extraordinário.

O filme estreia em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre, Belo Horizonte, Fortaleza, Salvador, Vitória, Goiânia, Caetés (MG) e Barueri (SP).

Uma música intoxicante – mais uma vez, em boa parte, canto lírico, como se viu em “A Grande Beleza” - se derrama enquanto belas imagens caem como em cascata, revelando o cenário de um elegante hotel-spa suíço, no meio das montanhas, em que alguns hóspedes assumem o papel de cronistas de temas caros ao diretor: o sentido da vida, o peso da maturidade, a razão de ser da arte, a necessidade onipresente da beleza.

Há particularmente dois velhos amigos que falam sobre a vida, Fred Ballinger (Michael Caine) e Mick Boyle (Harvey Keitel). Espécie de protagonistas da história, ambos são muito teatrais, no bom sentido, como personagens de Samuel Beckett banhados de uma luz mais branda, embora a melancolia e a amargura se infiltrem naturalmente, já que ambos atingiram uma idade em que arrependimentos são inevitáveis e muito do que foi perdido não se pode mais reaver. Ainda assim, ironia não lhes falta.

Os outros personagens à sua volta vêm tocar outras notas e compor a sinfonia em torno destes dois condutores, já que um, Fred, é maestro, o outro cineasta, duas profissões em que se luta para exercer controle e até se brinca de Deus. Os principais são Jimmy Tree, ator que vem compor um novo papel (Paul Dano), Lena, a filha insegura de Fred (Rachel Weisz), e uma velha musa de Mick, a atriz Brenda Morel (Jane Fonda, num papel de exposição corajosa, que demonstra não só sua confiança em Sorrentino, como nos lembra da grande intérprete que é).

Neste cenário suntuoso e isolado, com um artificialismo reforçado não só pela decoração do hotel como pela aparição de vários coadjuvantes – uma escultural Miss Universo (Madalina Ghenea), um obeso Diego Maradona (Roly Serrano), um monge budista que procura levitar (Dorji Wangchuk) - , é fácil pensar num cenário de ópera, já que vários dramas estão estourando abaixo da superfície.

Fred, o maestro aposentado, remói suas culpas em relação à vida familiar, constantemente cobrado pela filha, que é sua assistente. Ela mesma tem um dilema a resolver quando, ao invés de partir com ela numa viagem longamente planejada, seu marido Julian (Ed Stoppard), que é filho de Mick, anuncia-lhe a separação e o caso com outra mulher.

Assediado por um insistente emissário da rainha britânica (Alex Macqueen), o maestro poderia facilmente voltar a conduzir em grande estilo. Mas recusa, já que o desejo da soberana é que ele comande a execução de suas obras mais conhecidas, as “Simple Songs” – e isto ele não admite, por motivos pessoais.   Continuação...

 
Michael Caine e o diretor Sorrentino durante premiação europeia em Berlim.  12/12/ 2015.   REUTERS/Clemens Bilan/Pool