6 de Abril de 2016 / às 22:44 / em um ano

ESTREIA-“Decisão de Risco” investiga conflitos militares na era da globalização e tecnologia

Atriz Helen Mirren no tapete vermelho do prêmio "Die Goldene Kamera", em Hamburgo 06/02/2016 REUTERS/Morris Mac Matzen

SÃO PAULO (Reuters) - Há em “Decisão de Risco”, de Gavin Hood (“Infância Roubada”), alguns momentos que lembram “Dr. Strangelove...”, de Stanley Kubrick – especialmente aqueles que acontecem em torno de uma mesa de discussão.

O fato de nenhum personagem dizer nesse filme: “Senhores, essa é a Sala de Guerra. Vocês não podem brigar aqui” é um indicador de que o diretor não mira na sátira escrachada como o clássico de Kubrick – mas, nem por isso, deixa de encontrar o humor (involuntário e negro) que emerge de uma situação tensa.

Com roteiro assinado por Guy Hibbert, o longa acompanha momentos apreensivos envolvendo a decisão de bombardear ou não uma casa onde há um grupo de terroristas em Nairóbi, no Quênia. A construção do suspense se dá em diversos níveis, como a hierarquia que deve aprovar ou não a ação.

A personagem central – se é que há um protagonista aqui, dado o equilíbrio da narrativa – é a coronel Katherine Powell, interpretada por Helen Mirren.

Ela está no comando de uma operação que visa capturar uma inglesa que se envolveu com terroristas do Shabab. Perseguindo a mulher por anos – sem sair da Inglaterra, e usando a mais avançada tecnologia – a militar encontra a situação perfeita para prender seu alvo. Primeiro, no entanto, precisa da confirmação de que essa é realmente quem procura.

A situação, porém, complica-se quando, por meio de um besouro mecânico com uma câmera acoplada, sua equipe “entra” na casa onde estão a mulher e outros terroristas, e descobre que eles preparam um ataque suicida – há coletes e bombas preparados num cômodo.

Simplesmente prendê-los não é mais viável. Sua ideia é bombardear a casa usando um drone – comandado por um militar nos Estados Unidos (Aaron Paul).

Mas a coronel não pode simplesmente dar a ordem – apesar de saber contar com o apoio dos governos dos EUA, Inglaterra e do próprio Quênia. Há uma cadeia de autorizações necessárias, e que precisam ser obtidas rapidamente – pois os terroristas se aprontam para sair da casa rumo a um local presumivelmente repleto de gente.

O primeiro a quem ela contata é um tenente-coronel (Alan Rickman, morto em janeiro passado, aqui em um dos seus últimos trabalhos). Ele está reunido com um grupo de políticos e assessores (entre eles Jeremy Northam e Monica Dolan), e também depende da autorização deles, que, por sua vez, não querem arcar com o peso desta decisão sobre suas costas.

Isso porque o ataque à casa, numa região com outras casas e alguma circulação, certamente terá efeitos colaterais – leia-se, vítimas fatais que não têm nada a ver com os terroristas. Assim, com o tempo cada vez mais apertado, a coronel espera uma decisão – e cogita tomá-la por conta própria – para explodir a casa.

A contraposição feita por “Decisão de Risco” é exatamente entre a precisão dos equipamentos modernos – o drone pode jogar o explosivo num ponto exato escolhido – e o fator humano, passível de erro ou decisões pouco racionais, pautadas pela emoção.

Helen Mirren, numa de suas melhores performances, é controladora, numa personagem repleta de poder, mas, nem por isso, destituída de uma dose de humanismo, o que não a torna uma pessoa agradável. Seu pragmatismo não é de todo incompreensível, embora nem sempre se concorde com ele.

Rickman – mostrando porque fará tanta falta –, por outro lado, é mais humano e tenta entender tanto os argumentos dela quanto os das outras pessoas à sua volta.

No início dos anos de 1990 – ainda no calor dos acontecimentos –, o filósofo francês Jean Baudrillard escreveu um texto chamado “A Guerra do Golfo não Aconteceu”.

Seu argumento envolve, entre outras coisas, não apenas o mundo pós-Guerra Fria, como também as tecnologias que possibilitam a virtualização do real (um tema caro ao seu pensamento). A questão que aproxima seu artigo de “Decisão de Risco” é exatamente a de que os conflitos contemporâneos podem ser lutados à distância.

Aqui, militares ingleses e norte-americanos (agindo confortavelmente sentados em cadeiras em seus próprios países) determinam todos os passos de um conflito num terceiro continente. O único a correr um risco real é um personagem interpretado pelo ótimo ator somali Barkhad Abdi (“Capitão Phillips”) que está num mercado em frente à casa, controlando o besouro mecânico com um aparelho.

Mais de duas décadas atrás, Baudrillard disse que “ao contrário das guerras anteriores, nas quais os objetivos políticos eram conquistar ou dominar, o que está em jogo nessa guerra é a própria guerra: seu status, seu significado, seu futuro”.

“Decisão de Risco” mostra o quão premonitório foi o texto do filósofo, evidenciando como uma cadeia burocrática – de países ricos – toma medidas, faz escolhas sobre ataques em sua maior parte nos países pobres. Não poderia haver um filme mais alarmante, mas também, mais revelador de nosso presente.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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