ESTREIA-No premiado documentário “O Futebol”, pai e filho tentam reatar laços

quarta-feira, 20 de abril de 2016 15:55 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Grande vencedor da edição de 2016 do festival de documentários É Tudo Verdade, encerrado no último final de semana, “O Futebol” marca um retorno temático ao Brasil do premiado documentarista Sergio Oksman, radicado há 20 anos na Espanha. Ao centro, estão seu pai, Simão, e o próprio diretor, numa tentativa de reatar os laços, pois não se veem há duas décadas.

O longa começa com um breve reencontro num dia chuvoso e a promessa de que assistirão juntos à Copa de 2014. Sergio, que mora em Madri, vem para o Brasil especialmente para acompanhar o evento com o pai. Mas, ao mesmo tempo, o entorno revela um país mais melancólico do que em outras Copas.

Simão e Sergio se encontram durante os jogos, que servem como um pretexto para compartilharem momentos juntos. Muitas das cenas se passam dentro do carro, com uma câmera fixa no banco de trás filmando suas nucas. Suas conversas vão do corriqueiro aos traumas do passado e dificuldades do presente. O futebol, aparentemente o único assunto em comum, torna-se um mediador e combustível das conversas, mas o passado sempre reaparece.

É no carro que diálogos reveladores se dão. São sempre curtos e começam de forma pouco direta. Sergio tenta entender as razões do pai ter deixado a família décadas atrás. Simão não parece muito interessado quando assistem à antiga filmagem de seu casamento.

Enquanto filma o pai e suas interações com ele, o diretor também investiga a capacidade e as contenções do gênero. Em certo momento, num bar, Simão pergunta a Sergio se já pode acabar as filmagens. “Está bom. Posso ir embora?”, diz. O quanto então, realmente, estamos vendo de Sergio e seu pai? O quanto há do filtro do documentário? É nessa dicotomia da forma que o longa pode revelar o momento do Brasil.

Andando pelas ruas de São Paulo, em plena Copa no Brasil, Sergio estranha a apatia, a falta de decoração, o baixo entusiasmo. Era (e ainda é) um momento histórico estranho. A melancolia deste documentário cristaliza em si aquela de um país que pouco acreditava em sua seleção, e de um jogo político que começava a ganhar corpo. O fatal 7 x 1, presente, é claro, no filme, é um evento simbólico importante não apenas para a trajetória de Simão e Sergio, como também para a atuação na Copa, mas para toda uma nação. E parece ressoar até hoje.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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