ESTREIA–Matteo Garrone troca realismo pelas fábulas fantásticas em “O Conto dos Contos”

quarta-feira, 11 de maio de 2016 16:56 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Sem dúvida, é de se admirar que o cineasta italiano Matteo Garrone, conhecido por “Gomorra” (2008) e também “Reality – A Grande Ilusão” (2012), mude tão radicalmente de estilo num novo trabalho, “O Conto dos Contos”, uma incursão no cinema fantástico que revisita o mundo dos contos de fadas. É também o primeiro filme do diretor falado em inglês.

Nem por situar-se no campo das fábulas o filme de Garrone se pretende infantil. Aliás, justamente uma das dificuldades que se enxerga à primeira vista nesta livre interpretação de alguns relatos do autor italiano Giambattista Basile, que teriam inspirado fábulas famosas como “Rapunzel”, “Cinderela” e “A Bela Adormecida”, é justamente identificar qual é o seu público.

Porque o mundo um tanto sinistro, outro tanto devasso, destas narrativas certamente visa no mínimo adolescentes da era do videogame, que poderão ou não encantar-se com o fundo fantástico, mas com um tempero um pouco nostálgico por trás destes personagens de reis, rainhas, princesas, camponeses e bruxas.

Em todo caso, é certo que dois pontos altos estão no elenco estelar internacional e nos bons efeitos especiais e direção de arte, fundamentais para a credibilidade de histórias deste tipo.

O enredo decola com a obsessão de uma rainha espanhola (Salma Hayek) para tornar-se mãe, o que a leva a recorrer aos serviços de um bruxo, que instiga o rei (John C. Reilly) a caçar um monstro marinho, para obter-lhe o coração –ingrediente essencial no preparo do feitiço que engravidará a rainha.

A façanha custa caro, mas dá certo, com o nascimento quase imediato de um príncipe herdeiro (Christian Lees). Ao mesmo tempo, a camponesa virgem que preparou o coração do monstro para a rainha também engravidou magicamente e teve outro menino (Jonah Lees). Ambos idênticos, com cabelos e pele muito brancos, eles demonstram uma afinidade inquietante para a rainha-mãe.

Um dos temas que percorrem o filme italiano é a vontade absolutista, não raro absurda de diversos reis. Outro soberano (Toby Jones), depois de alimentar uma pulga com sangue, o que provoca o crescimento monstruoso dela, usa sua pele, quando ela morre, como objeto de um estranho torneio para escolha do marido de sua filha –que, afinal, será um ogro (Guillaume Delaunay), para desespero da garota.

Outro rei (Vincent Cassel), um insaciável lascivo, apaixona-se pela voz de uma mulher muito velha (Hayley Carmichael, sob uma maquiagem impressionante), gerando um dos episódios mais interessantes.

Sintonizado com algumas tentativas de renovação do cinema comercial, que procura ser mais original voltando-se a antigas fontes literárias sem menosprezar a sedução do público, “O Conto dos Contos” tem seu desafio a vencer também num certo desequilíbrio entre as partes e histórias. Esse era, afinal, também um defeito dos trabalhos anteriores do diretor.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

 
Diretor Matteo Garrone em Canes
 14/5/2015 REUTERS/Benoit Tessier