ESTREIA–“Jogo do Dinheiro”, com Clooney e Julia Roberts, satiriza mundo dos investimentos nos EUA

quarta-feira, 25 de maio de 2016 17:32 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - “Jogo do Dinheiro”, novo filme dirigido por Jodie Foster, é uma combinação de Wall Street com “A Sociedade do Espetáculo”, descrita pelo escritor francês Guy Debord.

No filme, George Clooney é Lee Gates, uma mistura de animador de auditório com economista que apresenta um programa na televisão no qual dá dicas de investimentos. O personagem é inspirado numa figural real, Jim Cramer, do canal CNBC, e não tem senso do ridículo.

O longa – roteirizado por Jamie Linden, Alan DiFiore e Jim Kouf – começa como uma sátira a esse tipo de programa televisivo, capaz de espetacularizar tudo, e essa é uma questão que jamais sairá do horizonte, especialmente quando Kyle Budwell (Jack O'Connell) invade o estúdio com uma arma e coloca um colete com uma bomba em Gates. Se o rapaz acionar o detonador, o estúdio todo explode.

Budwell é um sujeito sem muita perspectiva na vida, que investiu todo o seu pouco dinheiro em aplicações aconselhadas por Gates e perdeu tudo, por isso a vingança. O que há por trás é um esquema de corrupção de uma grande empresa, mas o filme também sabe que o capital tem uma circulação global, e personagens na Rússia, Coreia do Sul e África do Sul têm seu papel. Mas o grande vilão, como não poderia deixar de ser, é o empresariado, aqui representado por Walt Camby (Dominic West).

Não custa muito e o circo está armado. A diretora do programa, Patty Fenn (Julia Roberts), está preocupada com a vida do colega – que para ela, com razão, é um sujeito narcisista e arrogante – mas também com os índices de audiência que foram para a estratosfera. Gates também não é burro, e sabe se aproveitar da situação, mesmo com sua vida em perigo.

Não há nada de novo em “Jogo do Dinheiro” sobre a ganância das grandes corporações ou a devassidão da mídia, mas, ao contrário do supervalorizado “A Grande Aposta”, o filme não quer ensinar nada e, talvez por isso mesmo, faz um comentário bem mais ácido, especialmente por meio da comédia.

Há poucas cenas de Clooney e Julia juntos, pois ele está o tempo todo na frente das câmeras, e ela nos bastidores, dirigindo o programa, o que não a impede de funcionar como um superego por meio do ponto eletrônico na orelha dele. As instruções visam tanto poupar a vida do apresentador quanto aumentar a audiência. Nesse caso, o sensacionalismo tem um papel fundamental.

“Jogo do Dinheiro” inverte, mais ou menos, o paradigma. O homem com a arma e o detonador na mão não é o vilão – mas também não é o herói. Ele é um sujeito comum que, simbolicamente, pode representar muitos, em busca de respostas.

Ele não quer o seu dinheiro de volta. Uma compensação financeira não é o que busca. Ele quer explicações. E quando elas vêm, não são lá muito originais, pois o filme não está muito interessado em desafiar o sistema – que filme bancado por um grande estúdio estaria? – mas, no fundo, tem bastante a dizer sobre o estado das coisas no presente.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

 
Julia Roberts e George Clooney  em Cannes para divulgar  “Jogo do Dinheiro”.  12/5/2016.  REUTERS/Regis Duvignau