ESTREIA-“O Outro Lado do Paraíso” registra ponto de vista de um menino sobre a ditadura

quarta-feira, 1 de junho de 2016 16:17 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Brasília é um sonho político, arquitetônico e urbanístico de concreto, onde os sonhos do povo brasileiro deveriam ser concretizados, porém, quase nunca o são. O pai do escritor mineiro Luiz Fernando Emediato foi um dos sonhadores que para lá foram, esperançosos, para ajudar em sua construção; mas descobriram, às vésperas do golpe de 1964, “O Outro Lado do Paraíso” (2014).

Esse é o título dado ao conto escrito em homenagem ao seu pai, Antônio Trindade, e que se transformou no longa homônimo de André Ristum, do qual Emediato também é produtor e personagem.

Como alter ego do também jornalista e editor, Davi Galdeano encarna o menino Nando, cujo pai (Eduardo Moscovis) está sempre em busca desse paraíso na terra, o país de Evilath que seu Antônio lera na Bíblia.

Desta vez, a promessa de felicidade está em Brasília e o chefe da família leva a mulher Nancy (Simone Iliescu) e seus três filhos do interior de Minas Gerais para Taguatinga, cidade-satélite onde moram os trabalhadores da construção da nova capital.

Mas a mudança é dolorosa para o garoto, ainda envolvido em seus primeiros amores: deixou no vilarejo a pequena Alice (Tais Andrade), enquanto no novo endereço encontrou os livros e a rebelde Iara (Maju Souza).

Além da relação entre pai e filho, tema de “Meu País” (2011), filme anterior de Ristum, a abordagem ficcional do momento do golpe foi um atrativo do projeto para o diretor. Nascido no exterior, após seus pais saírem do Brasil em 1967, por conta da repressão, e só retornarem depois da Anistia, André já retratou o período no documentário “Tempo de Resistência” (2003). Aqui, a adorada figura paterna, simpatizante do governo Jango e das causas sindicais, vira alvo dos militares.

Por isso, não surpreende a adoção da visão do garoto sobre a conturbada época, que, por sua vez, gera uma clara lembrança de “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias” (2006), de Cao Hamburger, embora guarde mais semelhanças com o chileno “Machuca” (2004) e o argentino “Kamchatka” (2002).

A escolha cativa o público, mas, ao dar ao protagonista o desejo por livros políticos e a voz adulta em desnecessários offs, o cineasta compromete certa inocência e possibilidades do ponto de vista infantil, sem aprofundar o contexto político.

Apesar dos offs do jovem escrevendo cartas para a amada, nos quais Galdeano não se sai tão bem quanto em cena, o intérprete mostra-se promissor. De igual maneira, mesmo que passe perto do melodrama, a direção não se prende a isto e apenas gera mais empatia pelos personagens do que no extremamente contido “Meu País".   Continuação...