ESTREIA–Documentário “Paratodos” valoriza retratos humanos de atletas paralímpicos brasileiros

quarta-feira, 22 de junho de 2016 18:35 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - No meio da turbulência política do país, até mesmo os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, que serão realizados em agosto, chegam a ficar em segundo plano nos noticiários. E se a chegada da competição parece distante de grande parte da população, apesar da proximidade da data, o que dizer das Paralimpíadas, desconhecidas por muitos.

Marcelo Mesquita era uma dessas pessoas. Apesar de acompanhar o noticiário esportivo, ele se surpreendeu ao ver o estádio cheio e os tempos obtidos na prova que inspirou e abre seu novo documentário, “Paratodos”: a final dos 200m rasos das classes T43/T44 do atletismo nos Jogos Paralímpicos de Londres-2012, na qual o brasileiro Alan Fonteles desbancou o favoritíssimo sul-africano Oscar Pistorius. Se foi nesta última edição que o Brasil se consagrou como a sétima potência mundial dos esportes adaptados, o cineasta percebeu que naquele universo havia material suficiente para um longa.

Contudo, ao longo das filmagens, realizadas em diversos países e competições, durante o intervalo de quatro anos deste ciclo paraolímpico, novos personagens e questões importantes, como o problema da classificação motora errada dos competidores, surgiram no caminho da ambiciosa produção, que evita o vitimismo e se afasta do sentimentalismo, tão comuns ao tema, para simplesmente mostrar o dia-a-dia de atletas de alto rendimento.

Negligenciar as dificuldades para ingressar no esporte paralímpico em um país de pouco incentivo esportivo, de um modo geral, talvez seja o principal pecado do longa.

Por isso, é significativo o documentário iniciar com a história de Alan, ligada de certa forma à trajetória do Pistorius, de campeão mundial e ídolo nacional a acusado de assassinar a própria namorada, deixando clara a intenção de apresentar seres humanos, com todos os seus defeitos e qualidades.

Assim, o longa foca, às vezes, até de modo demasiado, no ganho de peso do velocista biamputado brasileiro após seu ano sabático, privando o público de mais detalhes da carreira de Terezinha Guilhermina, deficiente visual tricampeã paralímpica, e de Johansson Nascimento, marcado pelo pedido de casamento que fez logo após ganhar o ouro em Londres.

O núcleo do atletismo concentra o primeiro e mais atravancado dos quatro atos da produção, estruturada em uma narrativa episódica pelo roteirista Peppe Siffredi – parceiro de Marcelo em seu primeiro longa, “Cidade Cinza”, que, por sua vez, foi produtor de seu projeto “A Viagem de Yoani”.

A divisão facilita a compreensão do espectador pouco familiarizado com a área esportiva e uma possível migração do produto para a televisão, em formato de série, mas perde ritmo em seu último segmento, dedicado à natação. Destacando as medalhas do multicampeão Daniel Dias e as conquistas de Suzana Schrnardof confrontando o avanço de sua doença degenerativa, a última parte escorrega em um viés sentimentalista, mas ainda sim consegue repassar bem a mensagem final de superação a que o longa se propõe.

No entanto, são o segundo e terceiro atos que demonstram uma preocupação estética e apuro técnico maior de Mesquita e sua equipe, fugindo do caminho convencional do início e do final. A abertura do segmento da canoagem impressiona com a imagem aérea indo da pista da Marginal Pinheiros para a Raia Olímpica da USP onde Fernando Fernandes está treinando.   Continuação...

 
Daniel Dias comemora vitória nos Jogos Paralímpicos de Londres. 7/9/2012. REUTERS/Suzanne Plunkett