ESTREIA–Comédia nacional “Entre Idas e Vindas” não encontra tom de seu humor

quarta-feira, 20 de julho de 2016 16:53 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - A carreira do cineasta paulista José Eduardo Belmonte é curiosa. Chamou a atenção do público em 2005, quando seu “A Concepção” foi exibido no Festival de Brasília, e despertou reações radicais: era um filme “ame ou odeie”.

Dois anos depois, fez o seu melhor filme até agora, “Meu Mundo em Perigo”, um estudo sensível e inteligente sobre a solidão, a perda e o mundo contemporâneo. Quando resolveu experimentar num cinema mais comercial, por assim dizer, fez “Billi Pig,”, uma comédia com Grazi Massafera, e, posteriormente, o policial “Alemão”, até aqui seu maior sucesso de bilheteria.

Seu novo trabalho, que atende pelo título genérico de “Entre Idas e Vindas”, tenta ficar no meio-termo, um cinema levemente autoral mas mirando num público maior que o gênero costuma atrair – haja vista a dupla central formada por Ingrid Guimarães e Fábio Assunção, além de lidar com a gramática das comédias românticas.

A questão é que o longa não se sai bem nem de um lado nem de outro. Como comédia, não é engraçado, não encontra seu timing, e solta meia dúzia de piadas machistas pelo meio do caminho. Como drama, não tem muito a dizer sobre o amor ou a condição humana.

Ingrid é Amanda, coordenadora de uma central de telemarketing que sai de viagem com três colegas, quando uma delas pensa se realmente vai casar ou cancelar a cerimônia. Ela é Sandra (Alice Braga), moça atormentada pela infidelidade do noivo. As outras duas são Krisse (Rosanne Mulholland, a melhor presença no filme) e Cillie (Caroline Abras, desperdiçada num papel que é uma espécie de alívio cômico; algo, aliás, meio estranho para uma comédia precisar de um alívio cômico). Elas viajam de sua cidade – não fica claro onde é – rumo a São Paulo num motorhome.

No meio do caminho, dão carona para Afonso (Assunção) e seu filho pequeno, Benedito (João Assunção, filho de Fábio, aliás), cujo carro, um velho Lada, quebrou e não funcionará mais. Claro que quando entram no veículo das moças, novas configurações se formam. Amanda, que vivia estressada, se interessa por Afonso – o que vai ao encontro do comentário machista do início do filme, quando uma colega diz que ela precisa de um homem para ser menos nervosa.

Benedito, por sua vez, tem sua primeira paixão juvenil por Krisse. Talvez estivesse aí uma subtrama bem mais interessante do que as demais. Contar a história pelo ponto de vista do garoto talvez pudesse trazer algum frescor e alguma paixão que faltam ao filme. Benedito está descobrindo o mundo. Em viagem com o pai, pretende encontrar a mãe (Marisol Ribeiro), que não vê há anos, desde que os abandonou para estudar na França.

Com roteiro assinado por Belmonte e Claudia Jouvin, “Entre Idas e Vindas” é um filme repleto de boas intenções – mas isso nunca salvou ninguém de nada. Já o carisma de Ingrid, dona de um inegável talento para comédia, vai se diluindo numa personagem tão óbvia e sem graça quanto um gerúndio numa ligação de telemarketing.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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