ESTREIA–Caso real de sequestro inspirou trama de “Mãe Só Há Uma”

quarta-feira, 20 de julho de 2016 17:00 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Dentre as inúmeras crises que abalam uma adolescência que se parece com tantas outras, Pierre (o estreante Naomi Nero), 17 anos, descobre uma muito mais drástica: sua mãe Aracy (Dani Nefussi) não é sua mãe, nem biológica, nem adotiva, e sim sua sequestradora, que o levou de uma maternidade, ainda bebê.

Este ponto de partida dramático, que conduz o novo filme de Anna Muylaert, “Mãe Só Há Uma”, tem raízes numa história real, o famoso sequestro do menino Pedrinho, em Brasília, em 1986. Mas o roteiro, assinado por Anna com a colaboração de Marcelo Caetano, vai mais longe do que uma adaptação do caso verídico, ampliando-o e atualizando-o para um sensível retrato de adolescência contemporânea.

Exibido no mais recente Festival de Berlim, em fevereiro, “Mãe Só Há Uma” venceu o prêmio de melhor filme pelo júri de leitores da revista alemã “Männer”.

Estabelecida, por um exame de DNA, sua identidade real – ele se chama Felipe, não Pierre -, o jovem é entregue à sua família biológica, formada por um casal de classe média, Matheus (Matheus Nachtergaele) e Glória (interpretada também por Dani Nefussi, o que contribui para a ambiguidade latente de toda a situação) e um irmão menor, Joca (Daniel Botelho).

Ansiosos para compensar o tempo perdido, estes pais literalmente sufocam Pierre de atenções, sem se dar ao trabalho de ouvi-lo, num momento em que o mundo que ele conhecia está desabando rapidamente - ficou para trás inclusive Jacqueline (Laís Dias), de 12 anos, que foi criada como irmã de Pierre e também fora sequestrada.

Neste mundo novo, Pierre tem mais dinheiro e conforto, mas nunca voz. Isto torna mais dramático o choque com os pais, já que neste momento ele está vivendo experiências sexuais nada ortodoxas. Gosta de vestir-se de mulher, pintar as unhas, mas transa com meninas, beija homens. Não definiu se é crossdresser, transgênero ou bissexual e nem quer, uma atitude bastante comum em sua geração, que os pais têm dificuldade de encarar.

Enxuto, com uma duração de pouco mais de uma hora e vinte minutos, o novo filme de Anna Muylaert (“Que Horas Ela Volta?”) consegue dar conta de uma série de aspectos desse estar no mundo adolescente – como demonstram não só as cenas do protagonista como um ótimo diálogo entre dois de seus colegas de escola, que retrata com uma precisão expressiva a angústia afetiva desta fase da vida.

Despojado e sem artifícios, como se fosse um documentário, “Mãe Só Há Uma” aborda em profundidade os limites da sensação de pertencimento e do conceito de identidade. E o faz sem maniqueísmo. Também há momentos em que estes pais extravasam suas emoções neste conflito, em que a palavra-chave, na bela e sutil cena final, é a fraternidade.

O comando do elenco, sob preparação de René Guerra (que faz uma ponta como assistente social), é outro aspecto forte, unindo em equilíbrio atores experientes, como Matheus, Dani, Luciana Paes e Helena Albergaria, e os ótimos garotos estreantes.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

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