ESTREIA–“Um Dia Perfeito” traz um olhar pop sobre conflito contemporâneo

quarta-feira, 20 de julho de 2016 17:50 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Em seu cinema, o espanhol Fernando León de Aranoa prima pela questão social, como fica claro no filme que o colocou em evidência, “Segunda-Feira ao Sol”, um drama sobre crise e desemprego em seu país protagonizado por Javier Bardem. Em “Um Dia Perfeito”, o cineasta volta sua câmera para outro tipo de crise social: uma guerra e a inércia que provoca.

Este que é seu primeiro filme em inglês –com um elenco multinacional– ambienta-se em algum lugar das Bálcãs, em meados dos anos de 1990, e tem ao centro um grupo de ajuda humanitária que precisa retirar um cadáver obeso que está entalado num poço numa aldeia. Depois disso, ainda é preciso descontaminar a água. Mas, enfim, uma coisa de cada vez.

E a primeira tarefa toma muito tempo. Era para ser algo simples, mas a corda que içaria o cadáver arrebenta, e é não fácil arrumar uma substituta. Cada vez mais complicada, a situação assume ares surreais a cada nova etapa, a cada novo problema. Embora o conflito esteja em vias de terminar, os estragos e a crise que sobram não se resolvem com facilidade.

A equipe de ajuda humanitária é composta por um portorriquenho, Mambrú (Benicio Del Toro), um americano, chamado apenas de B. (Tim Robbins), e uma francesa, Sophie (Mélanie Thierry), além de contar com a ajuda de um guia/tradutor, Damir (Fedja Stukan).

As situações de crise pessoal acabam rompendo fronteiras com aquelas internacionais e éticas. A chegada de uma nova personagem é mais um complicador –trata-se de Katya, interpretada pela ucraniana Olga Kurylenko, cuja história de amor mal-resolvida com Mambrú solta faíscas.

Trabalhando num roteiro escrito por ele e Diego Farias, a partir de um romance de Paula Farias, León de Aranoa imprime ao filme um tom que vai ao encontro da insanidade da situação e do cenário desolado, combinando com isso o humor do absurdo –o que faz lembrar filmes de guerra como “M*A*S*H*” e “Ardil-22”.

Filmado na Espanha –com Granada, Málaga e Cuenca “se passando” pela região das Balcãs dos anos de 1990– e com trilha sonora pop –incluindo Marilyn Mason, Lou Reed e Ramones, entre outros– “Um Dia Perfeito” investiga o lado absurdo de algo já absurdo por natureza.

Ao contar a história estritamente do ponto de vista dos ocidentais repletos de boa vontade, León de Aranoa abre mão de uma camada em seu filme. O que pensam aqueles que recebem ajuda? Aqueles que não têm como fugir da guerra? A posição da população civil local como coadjuvante no filme espelha exatamente o seu papel dentro de um conflito bélico: incapaz de tomar decisões e à mercê de ajuda, muitas vezes, vinda de fora.

Sem deixar de ser um tributo a homens e mulheres de diversos lugares do mundo que se arriscam pela paz, a história explora aspectos da guerra em tempos de globalização.   Continuação...