ESTREIA-“Funcionário do Mês” mostra o “jeitinho italiano” com ironia e se torna um fenômeno local

quarta-feira, 17 de agosto de 2016 16:44 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Quarta parceria do ator Checco Zalone com o diretor Gennaro Nunziante –as três anteriores não foram lançadas no Brasil–, “Funcionário do Mês” sagrou-se como a maior bilheteria da Itália este ano, com 71 milhões de dólares acumulados, mesmo fazendo uma sátira explícita a certos costumes, preconceitos, além da burocracia e corrupção arraigados na sociedade italiana, que ecoam o “jeitinho brasileiro”.

As ironias já começam no rápido prólogo, que mostra como o protagonista, também chamado Checco, já alimentava desde a infância o sonho de ser funcionário público, assim como seu pai (Maurizio Micheli).

Aos 38 anos, com o desejo realizado ao trabalhar em uma pacata Secretaria Regional de Caça e Pesca e ainda morando com seus pais, ele tem sua vida boa chacoalhada pela posse de um novo ministro (Antonino Bruschetta), que realiza uma reforma na administração pública, cortando cargos para reduzir os gastos.

Com seu posto em risco, Checco aceita os mais variados trabalhos em diversos lugares, de entediantes a perigosos, designados pela implacável doutora Sironi (Sonia Bergamasco) - que tem nele o único entrave para completar a lista de demissões ministeriais, pois ele resiste a perder a estabilidade e os outros benefícios do funcionalismo público.

Como último recurso, ela o envia a uma base de pesquisa no Polo Norte, onde o italiano conhece a doutora Valeria (Eleonora Giovanardi). A partir daí, o filme começa a desenhar-se como comédia romântica.

O sarcasmo comparece também na apresentação da Noruega e seu mundo civilizado, em uma clara comparação com a Itália, cujo retrato sociocultural revela a atual situação do país, com problemas de desemprego, escândalos políticos de corrupção e a grande entrada de refugiados –ousa-se até uma piada direta com Lampedusa.

Além disso, aborda-se certo sexismo e racismo de uma população italiana com dificuldades de mudar e lidar com ideias liberais em um momento de crise do status quo.

Este viés crítico é a principal qualidade do roteiro episódico de Zalone e Nunziante, que muitas vezes se assemelha a uma junção de esquetes que, talvez pelas grandes mudanças espaciais e profissionais do protagonista, não consiga manter a fluidez da narrativa em um ritmo constante.

Pesam também em cenas pontuais algumas piadas internas que atrapalham o entendimento do público brasileiro –e há de se perguntar se alguns estereótipos regionais não são ofensivos mesmo à plateia italiana. A qualidade técnica é regular, porém melhor do que aparentam os pobres grafismos dos créditos iniciais, embora o CG fique bem evidente em algumas sequências.   Continuação...