ESTREIA–“Loucas de Alegria” retrata amizade entre mulheres disfuncionais

quarta-feira, 31 de agosto de 2016 17:30 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Despontando como um dos grandes nomes de um novo cinema italiano, Paolo Virzì compõe em “Loucas de Alegria” uma comédia dramática em torno de personagens disfuncionais. Para o êxito da empreitada, conta com o envolvimento total de duas atrizes em plena forma, Valeria Bruna Tedeschi (que atuou no filme anterior de Virzì, “Capital Humano”) e Micaela Ramazzotti (sua musa em “A primeira coisa bela”).

É possível enxergar referências múltiplas na história destas duas mulheres, Beatrice (Valeria) e Donatella (Micaela), internas numa clínica psiquiátrica, a Villa Biondi, para pacientes com algum passivo com a justiça. Uma destas referências, certamente, é “Thelma e Louise”, de Ridley Scott, especialmente no segmento em que as duas fogem e caem na estrada num automóvel roubado.

No entanto, é num humor negro peculiarmente italiano – e que, por ser latino, apela profundamente aos brasileiros – que o filme de Virzì encontra sua identidade. Sem nunca escamotear as fragilidades e erros de suas protagonistas, ele abre caminho para que expressem personalidades complexas, encontrando assim a chave de uma humanidade muito contemporânea.

Beatrice é a socialite caída em desgraça por seu envolvimento com um tipo mafioso, que a levou a dar golpes financeiros que arruinaram sua família. Mesmo restrita à clínica, sem liberdade para passeios e à base de remédios tarja preta, ela nunca perde a pose. São hilários seus comentários sobre comida e figurino e suas memórias de grandeza, quem sabe o quanto reais ou imaginárias.

Sentindo-se aristocrática, ela resiste a engajar-se nas tarefas comunitárias em que se ocupam os demais pacientes, o que lhe vale um maior isolamento – e acessos de uma inevitável tristeza e solidão, que ela disfarça debaixo de um jorro sistemático de palavras, que poucos, no entanto, param para ouvir. Em todos os seus gestos, há um componente de encenação, este é seu número.

A chegada de uma nova paciente, Donatella, em tudo oposta a Beatrice, não parece promissora. A recém-chegada está devastada, física e emocionalmente, com um histórico de uso de drogas e uma tentativa de suicídio junto com um filho bebê (que sobreviveu e foi entregue à adoção). Resiste a mover-se, falar, até comer. Mas o par inusitado se forma, até porque a moça silenciosa sabe, como ninguém, ouvir a tagarela Beatrice.

Um passeio de pacientes dá às duas a oportunidade de uma fuga – a bem da verdade, arquitetada por Beatrice. Fora do ambiente protegido da clínica – que, nestes novos tempos, em nada se parece com o hospital repressor de “Um estranho no ninho” -, as duas vão experimentar seus limites, em aventuras que envolvem um shopping center, um restaurante chique e contatos com figuras do passado, como as respectivas mães de cada uma (vividas por Anna Galiena e Marisa Borini, mãe real de Valeria Bruni) e o ex- de Beatrice (Bob Massini).

Esses momentos na estrada substituem, com vantagem, os flashbacks, permitindo entender o percurso emocional de cada uma – em que cabe uma enorme dor, perdas e melancolia, mas também os sonhos que as alimentam.

É particularmente tocante o esforço de Micaela para reencontrar o filho, incorporando situações com alto risco de pieguice, de que o filme finalmente se safa. Emerge deste retrato de duas mulheres, afinal, um profundo respeito por suas escolhas e dificuldades. Assim, é possível o espectador habitar o espaço em torno delas e tornar-se também seu cúmplice.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

 
Atriz Micaela Ramazzotti e diretor Virzi posam em cerimônia em Riga. 13/12/2014.    REUTERS/Ints Kalnins