ESTREIA–“O Roubo da Taça” ficcionaliza episódio real dos anos de 1980

quarta-feira, 7 de setembro de 2016 15:27 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - É uma história tão sensacional que parece inventada – e parte dela foi, para o filme “O Roubo da Taça”. Mas, aparentemente, muito do que está na tela é real, ou, ao menos, poderia ter sido. O diretor Caito Ortiz – que assina o roteiro, premiado no Festival de Gramado, com Lusa Silvestre – parte de fatos concretos para inventar uma trama plausível, pautada pela comédia.

Peralta (Paulo Tiefenthaler, também premiado em Gramado) trabalha numa seguradora, está com dívidas de jogo e pensa sempre em se dar bem. É o típico malandro inofensivo, cujos golpes, apenas para lhe garantir uma vida melhor, nunca dão certo. Tenta de tudo, desde jogos clandestinos até esquema de pirâmide. Vale lembrar que eram os anos de 1980, e muita gente caía nesse golpe.

“O Roubo da Taça”, no entanto, é uma história que não poderia ter acontecido em outro país senão o Brasil, onde a lei e malandragem dialogam com facilidade, num contorno tênue e esfumaçado. Peralta tem fácil acesso à sede da CBF, no Rio, pois diz que é representante do Atlético Mineiro. A taça Jules Rimet – cujo direito de posse o Brasil conquistou em 1970 ao sagrar-se tricampeão derrotando a Itália – ficava na sala do presidente da entidade, atrás de um vidro blindado, com uma moldura presa por um único prego.

Junto com seu comparsa, o ex-policial Borracha (Danilo Grangheia), Peralta facilmente rouba o troféu numa calorenta noite de dezembro de 1983. Roubar foi fácil, mas o que fazer com a taça? Quem irá comprar aquilo que está na capa de todos os jornais? Para desespero de sua mulher, Dolores (Taís Araújo), ele a esconde dentro de sua própria casa. Enquanto buscam um comprador, a polícia entra em cena, na figura de um investigador (Milhem Cortaz).

A excelente direção de arte – assinada por Fábio Goldfarb, também premiado em Gramado – reconstitui uma época que parece nunca morrer no Brasil, os anos de 1980. Está tudo lá, na decoração da casa, nos acessórios e figurinos – por David Parizotti – e nas cenas na televisão, enquanto Dolores acompanha todos os dias os capítulos da primeira versão da novela “Guerra dos Sexos”, com direito a exibição da clássica cena de Fernanda Montenegro e Paulo Autran se atacando mutuamente com comida durante o café da manhã.

Além da reconstituição de época, da criatividade do roteiro e da fotografia vencedora em Gramado – de Ralph Strelow –, a grande estrela do filme é mesmo Tiefenthaler, que aqui mostra seu grande talento, especialmente para comédia. Ele já havia se destacado como coadjuvante em “Trinta”, mas é em “O Roubo da Taça” que mostra seu timing afiado para humor, sua sagacidade na composição de personagem – um sujeito com praticamente tudo errado na vida, incapaz de perceber que vai se dar mal – e presença de cena. Seu troféu em Gramado foi mais do que merecido.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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