ESTREIA–Dilemas da juventude alimentam clima ambíguo do drama “Mate-me Por Favor”

quarta-feira, 14 de setembro de 2016 16:22 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - A primeira impressão pode ser de estranheza, mas como um retrato cinematográfico da adolescência não haveria de traduzir como é estranha esta fase da vida? Valendo-se disto, “Mate-me Por Favor”, primeiro longa-metragem de Anita Rocha da Silveira, aposta no cinema de gênero, com o qual sempre flertou em seus curtas.

Em “O Vampiro da Meio-Dia” (2008), “Handebol” (2010) e “Os Mortos-Vivos” (2012), ela usou signos do terror e elementos sobrenaturais como metáforas de uma população amedrontada.

Essa representação ocorre através de Bia (Valentina Herszage) e seu trio de amigas (Mari Oliveira, Julia Roliz e Dora Friend), cujo cotidiano é abalado, assim como de toda a escola e da comunidade, por uma série de assassinatos de jovens, quase sempre mulheres, na região da Barra da Tijuca.

É uma trama de mistério em que as reações dos personagens importam mais do que a sua simples resolução. Se os casos assustam os moradores do bairro carioca, por outro lado, geram um interesse mórbido na garota de 15 anos que conduz a narrativa ambivalente, entre o naturalismo e surrealismo, numa efervescência de desejos e sentimentos comuns aos adolescentes.

Selecionado no Festival do Rio, na Mostra de Cinema de São Paulo, no Panorama Internacional de Salvador e no Janela em Recife, que exibiram, em 2015, uma bem-vinda safra de filmes adolescentes, “Mate-me...” destacou-se, não só pelos prêmios que recebeu mas pela rápida identificação que cria no público com aquele ambiente escolar.

E isso não só por temas como amor, inadequação, sexo, repressão, violência, dor, moral e religião, mas pela linguagem adolescente e elementos familiares até para quem já passou desta fase.

Vê-se um mundo particular onde os adultos praticamente não existem. A mãe de Bia e João (Bernardo Marinho), seu soturno irmão, é apenas citada. Ouve-se somente vozes no rádio e alto-falantes e até os maiores de idade são retratados como parte desta juventude isolada, na cabeça dos próprios adolescentes, também pela falta de compreensão de quem está fora dela.

Da mesma forma, a escolha pode significar uma ausência de perspectiva de futuro que se comunica com a cena final, igualmente fantasmagórica e libertadora sobre a passagem por esses anos de formação.

Silveira compõe um interessante equilíbrio entre a criação de um cotidiano realista e uma linguagem fantástica, misturando a uma estrutura de “slasher teen” o sarcasmo de “Meninas Malvadas” no retrato animalesco do ensino médio, além do terror psicológico e onírico de David Lynch.   Continuação...