ESTREIA–Comédia “Desculpe o Transtorno” explora contrastes entre Rio e S. Paulo

quarta-feira, 14 de setembro de 2016 16:52 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Eles não se conheceram em uma aula de jazz, e sim no aeroporto. Não houve conversa no ICQ, mas foto no Instagram abalando um relacionamento. Não fizeram uma dúzia de amigos novos e com eles um canal no YouTube - embora alguns dos que já tinham ou conheceram na terapia em grupo se pareçam com os membros do programa “Porta dos Fundos”.

Esta é a história de Eduardo, Duca e Bárbara, personagens de “Desculpe o Transtorno”, novo filme de Tomás Portella, estrelado por Gregório Duvivier e Clarice Falcão. Há uma semana, na sessão de imprensa, já era um desafio inicial ao espectador, por essa mania humana de criar desejos em cima da vida alheia, desassociar a trama fictícia da imagem de seus intérpretes, que formavam um casal durante as filmagens, realizadas dois anos atrás.

Agora em seu lançamento, a tarefa se torna ainda mais difícil depois da crônica de amor e agradecimento escrita pelo ator e humorista na “Folha de S. Paulo” para a ex-parceira de vida e de trabalho, que ganhou grande repercussão na mídia e nas redes sociais.

No meio disso tudo, existe uma simpática comédia romântica brasileira e seus clichês. Após uma breve introdução do protagonista em sua juventude no Rio de Janeiro, com a separação dos pais sendo um episódio traumático que definiria a sua vida, Duvivier é apresentado como Eduardo, que decidiu morar com o pai (Marcos Caruso) em São Paulo. Hoje adulto, está integrado ao clima da cidade, segue fielmente os passos paternos em uma empresa de patentes e namora há anos a fútil e gourmetizada Viviane (Dani Calabresa).

Ao ser obrigado a voltar ao Rio por causa da morte de sua mãe, o rapaz entra em crise e desenvolve um transtorno dissociativo de identidade, dando margem ao surgimento do Duca, um tipo carioca tranquilão e despreocupado, extensão do que era em sua infância, que cruza com uma carismática Clarice Falcão na pele de Bárbara - uma atriz frustrada que faz bicos de promotora de vendas fantasiada, entregando balões.

A imagem pré-concebida de cada uma das cidades sustenta a construção das duas personalidades do protagonista e de alguns coadjuvantes, assim como a fotografia, cenografia e figurino marcam as diferenças da milimetricamente organizada e reta rotina paulistana e a curvilínea e displicente vida no Rio.

Os produtores assumiram durante a coletiva de imprensa que a produção foi pensada primeiramente para ser um “filme de ponte aérea”. Depois, a trama da dupla personalidade foi introduzida, sem que a discussão sobre o transtorno fosse um objetivo principal. Só que o longa se mostra menos efetivo que o romance à distância de Ponte Aérea, de Júlia Rezende, e o caráter psicológico de Entre Abelhas, pois falta ousadia ao roteiro de Tatiana Maciel, Célio Porto e Adriana Falcão ao lidar com os estereótipos regionais e chavões do gênero que tenta desconstruir.

A sensação é que Portella, que começou com a comédia Qualquer Gato Vira-Lata e agora volta bem ao mesmo terreno com um toque mais romântico e reflexivo, não explora o potencial em relação aos temas e elenco – que tem Rafael Infante como amigo de Eduardo/Duca e breve participação de outros colegas ou ex-integrantes do Porta dos Fundos.

A obra fica no meio do caminho ao fazer mais do mesmo dentro da comédia romântica que tanto conhecemos, mas sendo assim mesmo uma produção diversa quanto ao seu gênero e tom cômico dentro da cinematografia brasileira.   Continuação...