ESTREIA-Coprodução Brasil-Uruguai, “O Silêncio do Céu” explora consequências do estupro

quarta-feira, 21 de setembro de 2016 17:11 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - “Era El Cielo”, o nome do livro de Sergio Bizzio que deu origem a esta coprodução Brasil-Uruguai, pode ser poético, mas não consegue combinar esta característica ao significado presente no título brasileiro, “O Silêncio do Céu”.

Em seu terceiro longa, Marco Dutra, dos marcantes “Trabalhar Cansa” (2011) e “Quando Eu Era Vivo” (2011), trabalha duplamente o silêncio em seus significados na trama. Ao mesmo tempo em que serve de sinal ou causa do declínio de qualquer relação - especialmente de um casamento como o dos personagens da atriz brasileira Carolina Dieckmann e do argentino Leonardo Sbaraglia -, também é o refúgio da vítima de um abuso sexual e de sua testemunha, pela opressão da culpa que ambos sentem.

A cena em questão abre o filme: Diana (Dieckmann) está sendo violentada por dois homens dentro de sua própria casa quando o marido, Mario (Sbaraglia), chega sorrateiramente e flagra aquele instante de horror, mas fica paralisado pelo medo, uma constante em sua vida.

A escolha em iniciar o filme pelo estupro não é só por mero choque. É sensível até como o cineasta evita a exploração sensacionalista da violência, assim como o uso fetichista do tema, usando apenas fortes fragmentos daquele ato para mostrar a sua crueldade.

O momento de terror é o ponto de partida da narrativa, que se dedica a observar como o casal lida com o ocorrido, já que ambos preferem se calar sobre o caso, de uma maneira que chega a ser cômica em seu ápice, se não fosse trágica.

O roteiro do próprio Bizzio, escrito junto com a mulher, Lucía Puenzo, e o capixaba Caetano Gotardo, revela os personagens aos poucos, para entender como a brasileira se mudou para Montevidéu para acompanhar o marido uruguaio e, hoje, cuida de seus dois filhos e trabalha em um ateliê de moda com Elisa (Paula Cohen), enquanto acompanha a busca dele pelos estupradores.

Com quase todos os diálogos em espanhol, talvez o texto se fie demais no uso do discurso em primeira pessoa, como resquício de sua origem literária, mas a narração não se torna abusiva ou maçante pelo tom confessional que contribui no desenvolvimento da psique desses cônjuges e, particularmente, pela oportuna troca de ponto de vista no terceiro ato.

Isso também ajuda na construção de Mario, um tipo tão complexo com suas fobias e difícil de ser justificado em suas ações, e que Leonardo defende tão bem nas facetas do personagem: a culpa o corrói a ponto de tentar ocultar seus medos crônicos em uma identidade escondida dentro do(s) personagem(ns) que cria para manter o casamento e caçar aqueles que não pode impedir antes.

Da mesma forma, Carolina Dieckmann mostra destreza para trabalhar com as dificuldades do papel, não só do tema e da língua estrangeira, mas principalmente pelo seu sofrimento silencioso; enquanto Chino Darín faz de Néstor mais do que um cara perturbado e retraído, Mirella Pascual confere o ar de mistério necessário à mãe dele, Malena.   Continuação...