ESTREIA-Animação “Kubo e as Cordas Mágicas” impressiona por sua técnica e visual

quinta-feira, 13 de outubro de 2016 12:52 BRT
 

(Reuters) - Apropriação cultural é uma questão que parece estar bem resolvida na animação “Kubo e as Cordas Mágicas”, novo filme dos estúdios Laika, o mesmo de “Coraline” e “Boxtrolls”. Isso porque, mesmo situado no Japão e envolvendo elementos da cultura nipônica, o filme o faz com tanto respeito e qualidade que não deve ferir nenhuma sensibilidade. O protagonista é o pequeno Kubo, samurai involuntário, vivendo uma história na qual as forças do mal - representadas por seu avô e tias – o ameaçam.

Ao centro, uma questão: entregar seu único olho (ele já perdeu o outro) ao avô, o maligno Rei Lua, e se tornar imortal ou lutar contra ele e todo o mal que representa. É claro que a escolha é pelo segundo caminho, o mais difícil mas também mais honroso. Há, aqui, a clássica trajetória do herói, combinada com elementos da cultura asiática. Kubo, capaz de criar origamis que ganham vida a partir das fábulas que inventa, é um contador de histórias com talento para inventar personagens e aventuras memoráveis. Porém, ele tem uma limitação: é incapaz de criar finais.

Filho de um samurai lendário chamado Hanzo e cujos traços são inspirados na figura do ator japonês Toshiro Mifune, o garoto foi criado por sua mãe numa caverna, escondido de todos por boa parte do tempo – exceto durante alguns momentos do dia quando foge para um vilarejo para contar suas histórias. Mas um ataque de suas tias, que usam máscaras do teatro Nô (assustadoramente sorridentes), acaba com essa rotina um tanto pacífica e coloca Kubo numa aventura, na companhia de uma macaca e um besouro-samurai, para tentar acabar com o reinado de terror do avô.

A jornada do garoto é a “desculpa” ideal para construir incidentes, cenários e ações visualmente impressionantes, como um navio criado apenas por folhas secas de árvores, ou o fundo do mar com olhos gigantes que capturam pessoas. Mas nada disso teria muito efeito se, ao centro, a trama, criada por Marc Haimes e Chris Butler, não fosse bem armada.

Há algo de Harry Potter na origem de Kubo, mas as personagens e cenários tão detalhadamente repletos de referências à iconografia japonesa fazem com que isso seja esquecido. Filmado pela técnica stop-motion, na qual cada imagem é a fotografia de um modelo 3D (há uma cena de making of nos créditos finais, e é impressionante) o filme tem um apelo visual imenso, mas encontra também uma história à altura. A trama, longe da correria que se tornou regra para as animações infantis, tem seu tempo de desenvolvimento sem pressa e próprio para se aprofundar nas personagens e criar tensão.

Curiosamente, ao falar de uma história sobre imortalidade, o diretor estreante Travis Knight – que participou do departamento de animação de filmes como “Coraline” – criou um filme que tem tudo para ser visto e amado por muitos e muitos anos, tamanha sua profunda ressonância emocional e esmero técnico e visual.

(Alysson Oliveira, do Cineweb)

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