4 de Setembro de 2008 / às 16:04 / 9 anos atrás

ESTRÉIA-Em "Linha de Passe", a busca por uma vida digna

SÃO PAULO (Reuters) - No jargão do futebol, “linha de passe” define a troca de passes entre os jogadores de um time sem que a bola seja interceptada pelo adversário. O termo, que também serve de título ao novo filme de Walter Salles e Daniela Thomas, se encaixa perfeitamente na história de uma mãe e quatro filhos que buscam melhorar de vida. Todos têm de tocar a bola sem deixar que ela escape de seu controle.

Os “jogadores” do filme, ambientado na periferia de São Paulo, são os cinco personagens centrais.

Dario (Vinicius de Oliveira, que estreou em “Central do Brasil”, também de Salles) sonha ser jogador de futebol e tem talento para isso. Porém, se aproxima dos 18 anos e suas chances são cada vez mais limitadas.

Dinho (José Geraldo Rodrigues), evangélico, é frentista num posto de gasolina; Dênis (João Baldasserini), motoboy, não vê muitas perspectivas para o futuro; e Reginaldo (Kaique Jesus Santos), o caçula, é um menino negro em busca do pai, motorista de ônibus.

A mãe, Cleuza, é interpretada pela atriz de teatro Sandra Corveloni, que conquistou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes, desbancando a favorita Angelina Jolie. Novamente grávida, ela trabalha como doméstica, e é uma torcedora fanática do Corinthians. “Eu sou a mãe e o pai de vocês”, costuma dizer.

A linha do tempo do filme acompanha as diversas peneiras pelas quais Dario passa, enquanto a vida dos membros da família cozinha em fogo brando. Todos com uma vontade de mudar, mas, aparentemente, sem poder de ação.

Dario tem muito talento para o futebol, mas é fominha demais com a bola. Por isso, nunca é escolhido nas seleções. Quando surge a oportunidade, ele tem de subornar o técnico de um pequeno time para conseguir a chance de entrar em campo. Dario não tem o dinheiro, mas promete conseguir.

Dênis tem um filho e, eventualmente, passa a noite com a mãe da criança; mas também seduz a secretária da agência de motoboys onde trabalha.

Em sua terceira parceria, Salles e Daniela lançam um olhar carinhoso sobre uma parcela da população mais humilde. Eles já haviam trabalhado juntos em “Terra Estrangeira” (1996) e “O Primeiro Dia” (1998).

Sem fazer julgamentos ou manipulações, os diretores mostram vidas cujas opções são limitadas ou quase inexistentes. Não culpam a sociedade nem apresentam soluções.

“Futebol é coletivo”, diz o técnico numa das peneiras enfrentadas por Dario. Assim, o esporte, no filme, ganha status de metáfora da vida. Cleuza acompanha a queda do Corinthians para a segunda divisão, sai frustrada e impotente dos jogos. Mas o mesmo acontece em sua vida, sobre a qual não consegue ter controle, enquanto é achatada pela falta de esperança.

Num momento crucial de “Linha de Passe”, um personagem desesperado diz: “Olha para mim”. Em sua frase de múltiplas interpretações ecoa toda uma família, uma fatia da população em busca de uma vida mais digna. Mesmo sem buscar culpados ou soluções, o filme passa a mensagem de que a mudança é possível --basta olhar com mais atenção ao redor.

Por Alysson Oliveira, do Cineweb

0 : 0
  • narrow-browser-and-phone
  • medium-browser-and-portrait-tablet
  • landscape-tablet
  • medium-wide-browser
  • wide-browser-and-larger
  • medium-browser-and-landscape-tablet
  • medium-wide-browser-and-larger
  • above-phone
  • portrait-tablet-and-above
  • above-portrait-tablet
  • landscape-tablet-and-above
  • landscape-tablet-and-medium-wide-browser
  • portrait-tablet-and-below
  • landscape-tablet-and-below