February 4, 2008 / 10:35 PM / in 9 years

No Carnaval da Bahia, a camiseta faz o folião

4 Min, DE LEITURA

Por Raquel Stenzel

SALVADOR (Reuters) - Esqueça a fantasia. A peça do vestuário mais importante no Carnaval da Bahia é a camiseta. Simples e sem plumas, ela determina o tipo de Carnaval que o folião vai pular.

Dependendo da camiseta que se veste, pode-se acompanhar um dos blocos mais animados do Carnaval, usufruindo da proteção das cordas, ou mesmo brincar ao lado de artistas famosos nos camarotes exclusivos. Sem camiseta de blocos ou de camarotes, o folião tem como única opção passar o Carnaval no meio da multidão sem qualquer proteção ou conforto.

"Pular Carnaval sem camiseta, nem a pau. As mulheres estão dentro das camisetas", afirma o empresário de Brasília Daniel Oliveira, 29 anos.

Algumas camisetas --como os chamados abadás que dão acesso aos blocos-- podem ser vendidas por até 900 reais. Já aquelas que servem de entrada para os camarotes mais disputados, como o Expresso 2222 e o de Daniela Mercury, são reservadas aos convidados.

"A maior briga do Carnaval de Salvador é a tal da camiseta", avalia Flora Gil, mulher do ministro da Cultura, Gilberto Gil, e responsável pelo camarote Expresso 2222, localizado no circuito Barra/Ondina, na orla marítima.

SEM-CAMISETA POR OPÇÃO

Há ainda, entre os que pagam pela peça e os que têm a honra de serem convidados a vestir uma, aqueles que a ignoram e preferem se perder no meio da multidão, na chamada pipoca, onde a folia é mais intensa.

Em outra categoria de "acesso" ao Carnaval de Salvador, bem mais restrita, estão os que podem dispensar a camiseta ou qualquer outra forma de passe. Neste grupo se enquadram os artistas famosos e políticos. "Se o Caetano Veloso chegar aqui ele entra, mesmo não estando de camiseta", explica a coordenadora-geral do camarote da Daniela Mercury, Nil Pereira.

A camiseta se popularizou como passaporte no Carnaval por facilitar a identificação de pessoas no meio da multidão e por ser mais um espaço de exposição das marcas das empresas patrocinadoras da festa.

Ainda não há um cálculo de quantas são produzidas para abastecer os seis dias de folia no Carnaval da Bahia, mas não há dúvidas de que o negócio envolve grandes somas.

"Quem ganha no Carnaval da Bahia é quem faz camisetas", diz Flora. Somente no Expresso 2222, 1.500 camisetas são distribuídas por dia para convidados e funcionários. "Meu sonho é fazer um camarote só com crachá (de identificação) para que as pessoas possam vir chiquérrimas."

As camisetas podem ser de tecido sintético e barato, como as dos cordeiros --homens e mulheres que ganham 20 reais por dia para fazer a segurança dos blocos-- ou ainda desenhadas por estilistas famosos.

Da mais simples àquelas com mais estilo, contudo, nenhuma está livre de ser cortada, furada ou enfeitada. "Quero tirar a gola, cortar as mangas e um pouco do cumprimento, mas não muito porque a minha barriguinha ainda não está pronta para aparecer", explica Ana Helena, alagoana de 35 anos, na fila de espera de costumização de camisetas no camarote de Daniela Mercury.

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