14 de Julho de 2008 / às 14:11 / em 9 anos

Duchamp, além do ready-made, lança enigmas em exposição em SP

<p>Foto de uma das r&eacute;plicas de 'O Grande Vidro', trabalho de Marcel Duchamp, que estar&aacute; em exposi&ccedil;&atilde;o no Museu de Arte Moderna de S&atilde;o Paulo, a partir da semana que vem. Photo by Reuters (Handout)</p>

Por Fernanda Ezabella

SÃO PAULO (Reuters) - O que é uma obra de arte? E quem decide o que é arte?

Inquietações do tipo nortearam a vida do franco-americano Marcel Duchamp (1887-1968), que revolucionou a história da arte ao negar o papel puramente visual de uma obra e lançar os princípios da arte conceitual, pop, minimalista, cinética e das instalações.

Uma retrospectiva de seu trabalho, a primeira na América Latina, acontecerá no Museu de Arte Moderna de São Paulo, a partir de terça-feira, como parte das comemorações dos 60 anos da instituição. São 120 trabalhos que vão além do ready-made, como são conhecidas suas obras mais famosas, incluindo o urinol e o banquinho com a roda de bicicleta.

A exposição promete ser pedagógica sem ser simplista, para que o público possa compreender, ou entender menos ainda, a obra de um dos principais artistas do século 20.

Isso porque seus trabalhos não são de fácil digestão, repletos de enigmas intrincados, muito embora Duchamp quisesse justamente aproximar a arte do público, rompendo com a idéia de sublime e exigindo a reflexão do espectador.

A própria curadora da exposição, Elena Filipovic, que estuda Duchamp há mais de uma década, concorda com a complexidade, mas garante que a viagem vale a pena. Ela se diz especialista em Duchamp, e não expert.

“É difícil ser expert em Duchamp, ele sempre faz você questionar as coisas. Eu espero que as pessoas voltem para ver a exposição algumas vezes, e não apenas uma vez”, disse Elena. “Porque é uma história que quanto mais você vê, mais você entende. Ele é um artista complicado.”

A própria montagem da exposição, sem linearidade e com paredes assimétricas, busca apresentar um lado pouco conhecido de Duchamp -- sua dedicação ao design de exposições -- mas tão importante quanto seus ready-made.

Duchamp criou verdadeiras instalações artísticas ao montar as mostras coletivas dos surrealistas nos anos 1938, 1942, 1947 e 1959. Quatro imagens dessas exposições poderão ser vistas em módulos fechados espalhados pela exposição, nos quais o visitante tem apenas uma fresta para admirá-las.

Na exposição de 1938, por exemplo, Duchamp cobriu o teto com sacos de carvão, com o chão sujo de folhas e uma escuridão total -- os espectadores usavam uma laterna para ver as obras. Em 1959, criou um ambiente de corpo humano para os surrealistas, com paredes que “respiravam”, sons de mulheres gemendo e diferentes perfumes no ar.

“Quando digo que é interessante ver seu trabalho como ‘curador’, embora esse termo ainda não existisse, é porque Duchamp estava sempre pensando no que é um trabalho de arte e como a exposição vai criar um impacto no modo em como você pensa um trabalho de arte”, explicou Elena.

HISTÓRIA ERÓTICA

Outras facetas pouco conhecidas de Duchamp, exploradas no MAM de maneira mais direta ou não, são seus trabalhos ópticos, incluindo um filme de 1926, sua preocupação com a fotografia através de registros de suas obras por Man Ray, e os trabalhos de áudio em parceria com John Cage.

A principal e mais enigmática obra, no entanto, é o “Grande Vidro” ou “A Noiva Despida por seus Celibatários, Mesmo”, que levou oito anos para ser realizada e ainda assim foi lançada incompleta, em 1923. Existem atualmente quatro réplicas, já que a original não sai do Museu de Arte de Filadélfia.

Como o próprio nome diz, trata-se de um grande vidro, com uma pintura abstrata que simboliza a noiva virgem na parte superior e os nove celibatários na parte de baixo, entre desenhos de mecanismos, como se eles rodassem em falso atrás da mulher impossível.

“Tenho estudado Duchamp por mais de 12 anos e eu nunca iria fingir e te dizer, ‘olha, o ‘Grande Vidro’ é isso”', disse Elena. “A coisa mais bonita sobre ele é seu enigma.”

Segundo ela, a obra remonta uma tradição que vem da Renascença, de usar a pintura para contar uma história. “É uma história erótica, sobre sexo, mas sobre sexo que não acontece, que é frustado”, explicou.

Três caixas de anotações sobre o “Grande Vidro”, de 1914 a 1967, essenciais para se começar a entender esse épico, estarão em exposição, espalhadas pelo espaço.

Outras obras famosas são “Caixa-valise”, com 69 trabalhos de Duchamp em miniatura, e seu último projeto, a instalação “Etant Donnés”, reconstruído no MAM através de imagens, desenhos e esboços.

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