11 de Julho de 2008 / às 12:45 / 9 anos atrás

ESTRÉIA-Comunidade árabe-francesa conduz "O Segredo do Grão"

SÃO PAULO (Reuters) - O premiado drama "O Segredo do Grão", do tunisiano Abdellatif Kechiche, é um bem-acabado retrato da identidade complexa dos franceses de origem árabe.

O filme, que estréia em São Paulo e Rio de Janeiro na sexta-feira, foi vencedor de quatro prêmios César (melhor filme francês, diretor, roteiro e atriz estreante), além do prêmio especial do júri no Festival de Veneza de 2007.

O protagonista é Slimane (Habib Boufares), um veterano reparador de barcos no porto de Sète, entre Marselha e a fronteira espanhola. Aos 60 anos, ele acaba de ter reduzida compulsoriamente sua jornada de trabalho, o que significa não só redução dos rendimentos como a iminência da demissão.

Slimane bem que gostaria de se aposentar, mas não há a menor possibilidade. Depende dos ganhos de seu trabalho para levar a vida, ao lado da segunda mulher, Latifa (Katika Karaoui), e sua enteada, Rym (Hafsia Herzi, premiada com o César).

Junto com Rym, ele desenvolve então um novo projeto de vida -- pedir a aposentadoria e, com a indenização, abrir um restaurante cujo prato principal será o famoso cuscuz marroquino.

A realização deste sonho requer algumas negociações. Para abrir o restaurante, Slimane quer contar com o apoio de ninguém menos do que sua ex-mulher, Souad (Bouraouïa Marzouk), cozinheira de mão cheia que domina os segredos de um famoso cuscuz.

A situação magoa Latifa, que preferia que Slimane usasse a indenização para reformar seu hotel e assumir oficialmente a relação amorosa entre os dois.

O sonho do restaurante abre uma delicada disputa entre todos os familiares de Slimane. Seus cinco filhos com Souad dividem-se no apoio ao projeto do pai. Um deles, Hamid (Abdelhamid Aktouche), acha que ele deveria simplesmente voltar para a terra de seus pais, no norte da África.

O pai aborrece-se com estas disputas, porque também depende do apoio dos filhos para uma outra parte do projeto -- a reforma de um velho barco, que servirá como sede do restaurante.

Ocupa um lugar especial na trama a enteada Rym, que vê no restaurante uma possibilidade de sua própria afirmação. Em primeiro lugar, como filha de Slimane -- o que ela não é na realidade, mas gostaria de ser.

Afinal, ele é a única figura paterna efetiva de sua vida. Apoiá-lo quando seus próprios filhos o criticam é, para ela, oportunidade única de consolidar esta ligação. Fora isso, o restaurante é uma oportunidade para sua própria emancipação, sua entrada na vida adulta.

A mocinha tem um solo maravilhoso na parte final, quando executa um número de dança do ventre para permitir que seu pai adotivo ganhe tempo para resolver uma séria crise.

Longa e sensual, a sequência, intercalada por uma busca frenética de Slimane pelas ruas da cidade, prolonga as emoções delicadas deste filme.

Neusa Barbosa, do Cineweb

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