ESTRÉIA-Meirelles se aproxima do caos em "Ensaio Sobre Cegueira"

quinta-feira, 11 de setembro de 2008 14:14 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Numa rua movimentada de uma grande cidade, o sinal fica verde, mas um motorista se recusa a mover o carro. Se instaura um início de confusão, prenúncio do caos que está por vir. É o início de "Ensaio Sobre a Cegueira", adaptação do romance homônimo do Nobel português José Saramago com direção do brasileiro Fernando Meirelles ("Cidade de Deus", "O Jardineiro Fiel"), que chega aos cinemas do país nesta sexta-feira.

Esse motorista é atacado por uma doença misteriosa que tira a sua visão. Ele tem a sensação de que tudo à sua volta é branco e que "nada no leite". Aos poucos, isso se torna uma epidemia inexplicável e incontrolável. Todos ficam cegos -- menos uma mulher, vivida por Julianne Moore ("As Horas"). Ironicamente, que é casada com um oftalmologista (Mark Ruffalo, de "Zodíaco"), um dos primeiros a perder a visão.

A falta desse sentido parece desumanizar as pessoas e aos poucos as remete a um estágio primitivo. O governo não sabe o que fazer e coloca todos os cegos em quarentena em um antigo hospital, que se transforma num microcosmos de uma sociedade maior. Entre os confinados estão um velho (Danny Glover, de "Manderlay"), uma garota de programa (a brasileira Alice Braga, de "Eu Sou a Lenda"), o médico e sua mulher -- a única pessoa ainda capaz de ver, mas que esconde isso dos outros cegos.

Com roteiro assinado pelo canadense Don McKellar -- que no filme também atua como o Ladrão de Carro -- "Ensaio Sobre a Cegueira" segue de perto os eventos da obra de Saramago -- a segunda do autor levada às telas, ao lado da adaptação de "A Jangada de Pedra" (2002). Assim, o filme vai fundo num mundo apocalíptico onde as pessoas destituídas de visão se alienam e se degradam aos poucos.

No confinamento há um clima de cooperação, mas quando começam a chegar mais cegos, a tensão se instaura. Um deles se proclama o Rei da Ala 3 (Gael García Bernal, de "Babel"), e coloca abaixo qualquer idéia de democracia possível. Ele comanda a distribuição dos alimentos e começa a fazer exigências cada vez piores em troca de comida.

Os cegos são poupados do horror, mas a Mulher do Médico é a única a quem essa visão assustadora é permitida. Como ela, o público testemunha a decadência dos personagens a quem as leis e o bom senso não se aplicam mais. Não existem mais velhos ou jovens, brancos ou negros, pois ninguém é capaz de ver o que o outro representa. Despidos desse sentido, os personagens podem deixar aflorar o que há de melhor ou pior dentro de si.

Para criar esse pesadelo apocalíptico, Meirelles e seu diretor de fotografia, o uruguaio César Charlone, inundam a tela de uma luz branca quase etérea. Em muitos momentos do filme, as legendas na tela são em preto para poderem ser lidas. Para que duvidemos de nossa visão, muitas das imagens no filme são reflexos de espelho ou vidro. Quando falta a visão, os sons se tornam essenciais para os personagens -- por isso qualquer ruído tem um apelo muito forte.

Desde sua primeira exibição no Festival de Cannes, em maio passado, "Ensaio Sobre a Cegueira" foi amado e odiado em doses quase iguais. Peter Bradshaw, do jornal inglês "The Guardian", disse que o filme é "um entretenimento popular com idéias desafiadoras". Já um crítico da revista "Variety" afirmou que o filme "emerge na tela exagerado e desmotivado".

"MAIS SIMPLES"   Continuação...

 
<p>O ator mexicano Gael Garcia Bernal atua em cena do novo filme do diretor Fernando Meirelles, 'Ensaio Sobre a Cegueira'. Numa rua movimentada de uma grande cidade, o sinal fica verde, mas um motorista se recusa a mover o carro. Se instaura um in&iacute;cio de confus&atilde;o, pren&uacute;ncio do caos que est&aacute; por vir. &Eacute; o in&iacute;cio de 'Ensaio Sobre a Cegueira'. Photo by Reuters (Handout)</p>