13 de Dezembro de 2007 / às 13:16 / 10 anos atrás

ESTRÉIA-David Lynch adere ao digital em "Império dos Sonhos"

<p>O cineasta norte-americano David Lynch posa antes de encontro em Viena, em Novembro. Veterano cineasta conhecido pela ousadia de seu estilo, Lynch experimentou pela primeira vez uma c&acirc;mera digital, operada por ele mesmo, para filmar 'Imp&eacute;rio dos Sonhos', que estr&eacute;ia nesta sexta-feira em circuito nacional. Photo by Leonhard Foeger</p>

SÃO PAULO (Reuters) - Veterano cineasta conhecido pela ousadia de seu estilo, o norte-americano David Lynch experimentou pela primeira vez uma câmera digital, operada por ele mesmo, para filmar "Império dos Sonhos", que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional.

A experiência valeu-lhe um prêmio por seu uso da nova tecnologia no Festival de Veneza de 2006, onde aconteceu a primeira exibição mundial do longa.

A estrela de "Império dos Sonhos" é Laura Dern, protagonista de um dos trabalhos mais conhecidos do diretor, "Coração Selvagem", que venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1990.

Ela interpreta Nikki Grace, atriz convidada para atuar na refilmagem de uma produção que, iniciada na Polônia há alguns anos, foi interrompida depois da morte de seus protagonistas.

Estes incidentes não impressionam Kingsley (Jeremy Irons), diretor desta nova filmagem, que convida também o ator Devon (Justin Theroux) para contracenar com Nikki. Uma figura estranha que vaga pelo set é Freddie (Harry Dean Stanton).

Apesar de apresentado como produtor, ele se veste com descuido e vive pedindo dinheiro emprestado aos atores.

A partir daí, torna-se cada vez mais difícil traçar uma fronteira entre realidade e ficção. Nikki vive no dia-a-dia a problemática de sua personagem no filme, Susan Blue, que se envolve num caso extraconjugal com Devon, exatamente como na história. O caso desperta tensão, por conta do intenso ciúme do ameaçador marido da atriz (Peter J. Lucas).

À medida que Nikki vai abrindo portas, outras dimensões entram em cena. Como as sequências do filme polonês que se tentou fazer e especialmente a curiosa sala dos coelhinhos -- onde se vêem pessoas com cabeças de coelhos agindo e falando como humanos, com as vozes dos atores Scott Coffey, Naomi Watts e Laura Harring (as duas estrelas de "Cidade dos Sonhos", do mesmo diretor, de 2001). Anteriormente, o diretor produziu curtas com estes intrigantes coelhinhos, que foram colocados para exibição no seu site (www.davidlynch.com).

Os ambientes se sobrepõem, delimitando o território destas diversas realidades. Há uma casa com jardim na frente, um quarto onde alguém dorme sob uma coberta verde, iluminado por vários abajures. Há uma insistente meia-luz quase sempre. Às vezes, a luz explode e cega, em vez de revelar ou esclarecer qualquer coisa.

Indomável, Nikki/Susan prossegue. Entra num galpão misterioso, sobe uma escada, o rosto visivelmente marcado por algum golpe. Logo mais, encontra uma espécie de detetive (Lynch volta a símbolos de seus filmes anteriores, como "Twin Peaks").

Num cinema antigo, uma mulher polonesa que chora assiste à sobreposição de planos, fatos, ou o que quer que isto seja, numa tela. O cinema de Lynch olha incessantemente para dentro de si mesmo, desdobrando suas camadas.

A passagem por Los Angeles, inclusive pela famosa Calçada da Fama, recoberta de nomes de estrelas de Hollywood, lembra que Lynch mais uma vez está fazendo referência à máquina de criação de sonhos que é a meca do cinema, como fez em "Cidade dos Sonhos".

Desafiando não só a inteligência, como a paciência de seus espectadores, já que o filme tem 3 horas de duração, o diretor lança, como sempre, um desafio a eles. Pode ser que muitos desistam de tentar a compreensão de uma história complexa e muito misteriosa. Mas ninguém pode reclamar de tédio. David Lynch continua um dos mais criativos provocadores do cinema atual.

Por Neusa Barbosa, do Cineweb

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