ENTREVISTA-Nachtergaele leva misticismo da Amazônia a Cannes

quarta-feira, 14 de maio de 2008 14:04 BRT
 

Por Fernanda Ezabella

SÃO PAULO (Reuters) - Matheus Nachtergaele não tem religião, mas acredita em milagre. Foi assim que o ator embarcou para Barcelos, a 400 km de Manaus, para rodar seu primeiro filme como diretor, "A Festa da Menina Morta", no qual cria uma religião a partir de um ritual misterioso.

"A Festa", que contou com apoio do governo do Amazonas, foi selecionado para a prestigiosa sessão Un Certain Regard, do Festival de Cinema de Cannes, que começa nesta quarta-feira.

Entre bezendeiras, pajés, padres, pais-de-santo, evangélicos e batistas, um novo grupo religioso é formado na pequena comunidade ribeirinha de Barcelos, a partir de um milagre, que é o aparecimento de um vestido rasgado de uma menina desaparecida.

"Eu tive esse desejo concreto e acho que a gente conseguiu, de alguma forma e sem ser um filme de antropologia, fazer de a 'Menina Morta' um amálgama das nossas religiões", disse Nachtergaele à Reuters por telefone.

"Tem traços catolizantes, traços da pajelança indígena, traços do candomblé, do espiritismo", disse. "É o pai-nosso dito em tupi."

Na frente desta nova religião está Santinho, interpretado por Daniel de Oliveira (ator de "Cazuza"). O rapaz encontra o vestidinho da menina após o suicídio de sua mãe e faz de sua casa um santuário para tal relíquia.

O filme se passa em dois dias, um para a preparação da festa da menina morta e outro para a festa-ritual propriamente dita, ápice da história, o qual o diretor faz suspense. As pessoas rezam em frente ao vestido, e acredita-se que Santinho receba a menina morta.

"O meu espanto diante do fato de a gente morrer permeia o filme todo, e também a minha comoção pelo fato de a gente conseguir dar sentido à vida", disse o diretor paulista de 39 anos, que assina o roteiro ao lado de Hilton Lacerda (roteirista de "Baixio das Bestas").   Continuação...