August 16, 2008 / 9:28 PM / in 9 years

OBITUÁRIO-Dorival Caymmi, precursor da bossa-nova, morre aos 94

5 Min, DE LEITURA

Por Fernanda Ezabella

SÃO PAULO (Reuters) - O cantor e compositor baiano Dorival Caymmi, autor de clássicos da música brasileira e considerado o avô da bossa-nova, morreu neste sábado em sua casa no Rio de Janeiro, aos 94 anos, por insuficiência múltipla dos órgãos.

Caymmi, que compôs, entre outras, "O que que a baiana tem?", "Doralice" e "Modinha para Gabriela", nasceu em abril de 1914, em Salvador. Foram mais de 60 anos de carreira, 20 discos lançados e inúmeras músicas gravadas por grandes intérpretes da MPB.

Filho de um músico amador e de uma doméstica que cantava em casa, Caymmi frequentava o côro da igreja e aprendeu a tocar violão sozinho. Sua estréia profissional aconteceu na Rádio Clube da Bahia e, aos 22 anos, ganhou um concurso de músicas de Carnaval, com o samba "A Bahia também dá".

Ao se mudar para o Rio de Janeiro, em 1938, Caymmi viu sua carreira deslanchar, principalmente após ter Carmen Miranda interpretando sua canção "O que que a baiana tem?", vendida a um estúdio para o filme "Banana da Terra", estrelado pela cantora, a mais popular da época e prestes a fazer sucesso estrondoso nos Estados Unidos.

Foi a partir desta canção que Carmen Miranda criou o figurino de baiana estilizada que a consagraria internacionalmente, com o turbante de frutas e os balagandãs.

Pintura E Bossa-Nova

Nos anos 1940, Caymmi dedica-se à pintura e ao desenho, explorando cenários baianos, como pescadores e comunidades beira-mar. Foi também nesta fase que compôs as chamadas "canções praieiras", que levaram para o resto do Brasil o estilo de vida baiano e tradições populares, como "Samba da Minha Terra" e "A Jangada Voltou Só".

"Minha música sempre foi figurativa. Vejo a música como um quadro, uma composição geral em que o fator humano é preponderante", disse o compositor.

Caymmi é considerado um predecessor da bossa-nova, alterando o acompanhamento do violão, um marco histórico do uso do instrumento entre os brasileiros. Foi referência para João Gilberto e Tom Jobim, pais do movimento, nos anos 1950.

Baiano de Juazeiro, Gilberto gravou diversas composições do colega, como "Rosa Morena", "Saudade da Bahia" e "Samba da Minha Terra". Com Jobim, fez o famoso disco "Caymmi Visita Tom", de 1964.

"O grande esforço de modernização de João se apoiou na modernização sem esforço de Caymmi", diz Caetano Veloso no livro Verdade Tropical.

Sua carreira internacional ganhou mais força em 1965, ao ir a Los Angeles para uma série de shows e gravação de um LP. A valsa "Das Rosas" é traduzida para o inglês pelo cantor Andy Williams. Dick Farney também já havia gravado outra, "Marina", em 1947.

CANDOMBLÉ, PARCERIAS E HOMENAGENS

Ao voltar para a Bahia, estreita lanços com o candomblé, tornando-se obá de um terreiro em 1968. Gravou "Oração da Mãe Menininha", homenagem à Menininha do Gantois nos seus 50 anos de mãe-de-santo. Outra canção ligada ao candomblé foi "Sargaço Mar", dedicada à Iemanjá.

De Jorge Amado, musicou um hino para a campanha de Luís Carlos Prestes ao Senado, em 1945, e compôs "Modinha para Gabriela", em 1975, baseada no romance "Gabriela, cravo e canela".

A canção foi interpretada por Gal Costa, outra soteropolitana, que conheceu Caymmi no Rio. A parceria foi bastante produtiva, rendendo as canções "Beijos pela noite", "Modinha para Teresa Batista", "Retirantes" e "Essa Nega Fulô".

A partir dos anos 1980, começou a colecionar homenagens. Aos 74 anos, em Paris, recebeu do ministro da Cultura Jack Lang a Comenda das Artes e Letras da França. Em 1986, virou enredo da Estação Primeira de Mangueira, com o qual a escola venceu o Carnaval daquele ano.

Casado com a cantora Stella Maris desde 1940, Caymmi deixa três filhos músicos, Nana, Dori e Danilo. No final dos anos 1980 e anos 1990, chegou a fazer shows com seus filhos, como no Festival de Jazz de Montreaux, na Suíça, que acabou virando o álbum "Família Caymmi em Montreaux".

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