ESTRÉIA-"Serras da Desordem" discute questão do índio no Brasil

quinta-feira, 17 de abril de 2008 13:50 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - "Serras da Desordem", do ítalo-brasileiro Andrea Tonacci, chega ao circuito com a vocação de desfazer fronteiras, reais e imaginárias. Concluído em 2005, o longa foi premiado com três troféus em Gramado em 2006 -- melhor filme, direção e fotografia.

O filme estréia no Rio de Janeiro e Brasília nesta sexta-feira.

"Serras da Desordem" marca a volta ao cinema, depois de 30 anos, de Tonacci, cineasta que militou no Cinema Marginal, especialmente no mítico "Bang-Bang" (1970), e cujo último filme havia sido "Conversas no Maranhão" (1977) -- em que também tratava, como aqui, de dramas de índios do Maranhão.

"Serras da Desordem" desafia uma classificação muito rígida de gênero -- é documentário e ficção, ao mesmo tempo. Tonacci faz um percurso entre muitos registros do documentário, do etnográfico ao ensaístico. Ao mesmo tempo, não se nega a usar os recursos da ficção, sobretudo na reencenação das histórias que acompanha -- a maior delas, a do índio awá Carapiru.

Os próprios personagens, Carapiru à frente, revivem em cena sua tragédia, a partir do massacre de sua aldeia, no Maranhão, por capangas a serviço de fazendeiros, em 1978. Sozinho, o índio escondeu-se pela floresta com seu arco e flecha e pouco mais. Sem família nem tribo, viveu, errante, ao longo de mais de 2.000 km, por dez anos.

Nesse caminho, foi encontrado por um grupo de sertanejos que, apesar de não-índios, acolheram-no em sua comunidade. Longe de aprender o português, Carapiru viveu entre eles boa parte desse tempo, até ser localizado pelos sertanistas Sydney Possuelo e Wellington Gomes Figueiredo, em 1988.

Os sertanejos e os sertanistas também revivem no filme partes desta incrível trajetória do índio, um awá guajá, uma das últimas nações nômades do Brasil. Nestas reencenações, entra não só a repetição pura e simples do passado, mas o seu comentário, à luz do pensamento atual de cada um deles.

Poucas vezes um filme brasileiro aproveitou tão bem a chance de confrontar diferentes aspectos do tema do choque cultural.

Uma chance que vem, especialmente, da oportunidade de encontrar estes sertanejos, gente de origem social muito próxima à dos algozes da tribo de Carapiru. Impossível não pensar que eles também poderiam tê-lo massacrado. Afinal, ele era o intruso, vinha nu e armado, com intenção de caçar os animais da comunidade para comer.   Continuação...