19 de Maio de 2008 / às 11:11 / 9 anos atrás

ENTREVISTA-Brasil boleiro e inventivo inspira Walter Salles

<p>Brasil boleiro e inventivo inspira Walter Salles. O diretor Walter Salles Jr. em imagem de arquivo.Futebol, religi&atilde;o e improvisa&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o esses os tr&ecirc;s esportes tipicamente brasileiros que o cineasta Walter Salles Jr., 52, escolheu para filmar 'Linha de Passe', que trata da vida de quatro irm&atilde;os abandonados pelo pai ainda no primeiro tempo de suas vidas.14 de maio de Photo by $Byline$</p>

Por Fernanda Ezabella e Maurício Savarese

SÃO PAULO (Reuters) - Futebol, religião e improvisação. São esses os três esportes tipicamente brasileiros que o cineasta Walter Salles Jr., 52, escolheu para filmar "Linha de Passe", que trata da vida de quatro irmãos abandonados pelo pai ainda no primeiro tempo de suas vidas.

Quando era apenas um jovem torcedor do Botafogo, o cineasta premiado por "Central do Brasil" e "Diários de Motocicleta" já notava o tom quase religioso que o esporte bretão adquiriu no Brasil. Essa mistura, somada ao desregramento do pós-jogo, diz ele, o inspiraram para revelar nas telas uma metáfora do país.

"Futebol e religião se encontram em mais de uma frente no Brasil. Primeiro, naquilo que é mais facilmente perceptível: na proximidade entre o fervor das torcidas e a fé dos crentes", disse Salles à Reuters em entrevista por e-mail.

"Depois, no fato de que para um jovem desfavorecido, o futebol representa uma saída desejada, embora raramente possível. A religião, de alguma forma, também", completou.

A escolha do tema, diz o cineasta, tem como base dois documentários dirigidos pelo irmão dele, João ("Futebol" e "Santa Cruz"). Com estréia prevista para o segundo semestre, "Linha de Passe" mostra "a capacidade de improvisação dos brasileiros e o comportamento da sociedade como um todo".

"O que me fascina é a capacidade de reinvenção que essas pessoas têm, enfrentando situações adversas. Todas as formas de exílio me interessam, mas a capacidade de sobrepujá-las me interessa mais ainda.".

A história se desenrola na capital paulista, em uma família chefiada por Cleuza (Sandra Corveloni), uma empregada doméstica que cria os quatro filhos e espera um quinto de mais um pai desconhecido.

Reginaldo (Kaique de Jesus Santos), o único negro entre os filhos, tenta obstinadamente encontrar o pai. Dario (Vinicius de Oliveira) insiste, já aos 18 anos, em se tornar jogador de futebol. Dinho (José Geraldo Rodrigues) busca refúgio na religião e o mais velho, Dênis (João Baldasserini), se esforça para manter o filho, fruto de uma gravidez indesejada.

FICÇÃO E DOCUMENTÁRIO

Salles tem se referido ao filme como um retrato de um país fraturado, onde o futebol é um "constitutivo da identidade nacional" e "a capacidade de improvisação dos jogadores tem algo a ver com a maneira com que a sociedade se comporta".

"A diferença é que ali no gramado existem regras... (e) o Brasil é um país onde as regras não são muitas vezes cumpridas fora das quatro linhas do campo. O futebol é, portanto, um espaço onde conseguimos nos ver representados", afirmou.

O único pretenso boleiro entre os irmãos é o interpretado por Vinicius de Oliveira, que se tornou famoso pelo papel do garoto Josué em "Central do Brasil". O longa metragem dirigido por Salles conquistou o Urso de Ouro do Festival de Berlim em 1998 e foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

Acostumado a dirigir estrelas como os atores Gael García Bernal ("Diários de Motocicleta"), Rodrigo Santoro ("Abril Despedaçado"), o cineasta optou --junto da co-diretora Daniela Thomas-- por trabalhar com atores estreantes e diálogos livres em "Linha de Passe", transitando entre ficção e documentário.

"Procuramos incorporar a pulsação da cidade no filme, integrar aquilo que estava acontecendo na rua, à nossa frente, dentro da narrativa", afirmou o diretor.

Para 2009, o cineasta brasileiro trabalha em um documentário sobre o livro de cabeceira daquela que se tornou famosa como a geração beat, "On the Road" ("Pé na Estrada" em português), de Jack Kerouac (1922-1969).

Depois de reencontrar e filmar os personagens do livro que ainda estão vivos, Salles conversou com poetas influentes no movimento pelo qual se interessa desde os 18 anos de idade.

"Existem várias matrizes dentro do movimento beat, mas cinco poetas que estão na sua origem me marcaram profundamente", afirmou o diretor brasileiro.

"(Allen) Ginsberg, pela sua admirável capacidade de invenção. Gary Snyder, que introduziu o conceito de ecologia no movimento e que é um homem de uma profunda sensibilidade e inteligência; Michael McClure, intelectual de uma precisão e radicalidade incomuns; e Diane di Prima e Lawrence Ferlinghetti, que alimentaram a veia anarquista do movimento, tão presente em São Francisco."

O lançamento do filme marca os 50 anos da morte de Kerouac, consumido pelo álcool aos 47 anos de idade.

Texto de Maurício Savarese

0 : 0
  • narrow-browser-and-phone
  • medium-browser-and-portrait-tablet
  • landscape-tablet
  • medium-wide-browser
  • wide-browser-and-larger
  • medium-browser-and-landscape-tablet
  • medium-wide-browser-and-larger
  • above-phone
  • portrait-tablet-and-above
  • above-portrait-tablet
  • landscape-tablet-and-above
  • landscape-tablet-and-medium-wide-browser
  • portrait-tablet-and-below
  • landscape-tablet-and-below