ESTRÉIA-"Questão Humana" discute métodos de grandes corporações

quinta-feira, 19 de junho de 2008 11:21 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Prêmio da Crítica na Mostra de São Paulo em 2007, o drama "A Questão Humana", de Nicolas Klotz, tem como protagonista um dos atores franceses mais requisitados da atualidade, Mathieu Amalric (de "Munique"). No filme, que estréia apenas em São Paulo, Amalric interpreta Simon Kessler, psicólogo de uma grande empresa petroquímica alemã, a SC Farb.

Seu trabalho é, basicamente, evitar que o estresse prejudique a produção, especialmente nos momentos em que há grandes cortes de pessoal. Fora isso, ele também supervisiona funcionários, cujo comportamento se desvie das expectativas da chefia.

Um dia, um diretor da empresa, Karl Rose (Jean-Pierre Kalfon), chama-o para uma missão especial -- quer que o psicólogo monitore ninguém menos do que o vice-presidente da companhia, Mathias Just (Michael Lonsdale, de "As Sombras de Goya").

O motivo, segundo Rose, é que Just apresenta comportamento impróprio, assediando mulheres e demonstrando desequilíbrio para tomar as decisões importantes que lhe cabem.

Kessler não pode aproximar-se deste alto funcionário da mesma maneira do que do resto dos outros. Vai, então, procurar o vice-presidente sob pretexto de montar uma orquestra dentro da empresa. No passado, Just tocou violoncelo e fazia parte de um quarteto clássico.

O investigado, porém, logo percebe que há alguma manobra em curso e que a iniciativa de vigiá-lo vem dos altos escalões da Farb.

Nesse ponto, entram na trama incidentes como a chegada de cartas anônimas e outros personagens, como um antigo colega de Just (Lou Castel). Tanto nas cartas, como nas declarações deste homem para o psicólogo, surgem informações bombásticas sobre o passado da empresa e de seus altos diretores, relacionados com o nazismo.

Inesperadamente, o próprio psicólogo vê-se diante de uma crise moral em relação ao seu trabalho. Quando diz a si mesmo que está apenas cumprindo ordens, ao contornar as crises causadas por demissões e novos processos, ele não está usando o mesmo argumento daqueles militares que permitiram as perseguições e massacres contra os judeus?

Baseado em livro de François Emmanuel, o roteiro de Elisabeth Perceval cria condições para que os métodos de seleção racial e social nazistas sejam comparados aos competitivos processos internos das grandes corporações modernas. É uma discussão séria, que o filme conduz com equilíbrio.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)