21 de Junho de 2008 / às 15:31 / 9 anos atrás

ESPECIAL-Política e petrodólares impulsionam cinema da Venezuela

Por Patricia Rondón Espín

CARACAS (Reuters) - Alejandro García Wiedemann grita para que retirem um objeto de cena enquanto fala ao telefone com a Reuters durante as filmagens de “Boves, El Urogallo”, que está sendo rodado nas planícies da Venezuela.

Diretor de fotografia do filme sobre a vida de José Tomás Boves, personagem da luta pela independência venezuelana, García comenta que “nunca se produziu tanto quanto agora”, graças a uma combinação de vontade política e grandes financiamentos.

“Nos últimos cinco anos o Estado vem dando apoio à produção cinematográfica nacional de maneira mais eficaz, melhor gerenciada e com visão de longo prazo”, comentou o cineasta, que lançou seu trabalho de estréia, “Plan B”, em 2006. Ele espera concluir em 2009 seu segundo filme como diretor, “Patas Arriba”.

Depois do boom do cinema nos anos 1980, a crise econômica na Venezuela derrubou a produção nacional na década seguinte. Muitas salas foram fechadas, e os tributos destinados a financiar o setor foram eliminados.

Hoje vive-se um novo auge graças ao interesse do governo em ampliar a experiência cinematográfica, com a criação de 100 cinemas comunitários em todo o país e sessões de cinema nas ruas.

Entretanto, em meio à divisão provocada pela virada socialista conduzida pelo presidente Hugo Chávez, algumas vozes afirmam que o objetivo dos filmes financiados pelo governo é difundir propaganda política.

Enquanto isso, realizadores e técnicos procuram dividir-se entre os vários projetos iniciados desde que subiu o orçamento cinematográfico do país de 28 milhões de habitantes, procurando converter a população em “artífice e protagonista” do imaginário coletivo.

“Está sendo difícil produzir vários filmes ao mesmo tempo, devido à explosão da produção e à escassez de técnicos”, disse o coordenador de cinema do Ministério da Cultura e presidente do Centro Nacional Autônomo de Cinematografia (CNAC), Juan Carlos Lossada.

Fortalecida pelas vendas de petróleo, a Venezuela lançou em 2005 uma cruzada para impulsionar o cinema nacional. Em 2008, o cinema venezuelano terá a melhor colheita de sua história, com 30 produções lançadas, sendo quase metade documentários e 70 por cento os primeiros trabalhos de seus diretores.

ENTRE IDEOLOGIA E INDEPENDÊNCIA

Para apoiar a produção local, existe uma plataforma estatal composta pelo CNAC, a exibidora Cinemateca, a produtora Fundação La Villa del Cine e a distribuidora Amazonia Filmes, somada a uma lei de cinema aprovada em 2005.

“O Estado também tem o direito de produzir, ele próprio...Através dessa produção, é possível não apenas levar entretenimento à população, mas também abrir espaços de conhecimento da informação”, disse Lossada, que dirige a política cinematográfica local.

Hugo Chávez diz que Hollywood defende os valores capitalistas, e Lossada tem a mesma linha de pensamento. O orçamento do CNAC, que está sob seu controle, subiu de 2,8 milhões de dólares em 2005 para 28 milhões em 2008.

Lossada afirma que a La Villa del Cine, uma espécie de “Cinecittà” venezuelana, com orçamento de 14 milhões de dólares em seu segundo ano de existência, destaca outras ideologias em suas tramas e nos produtos de entretenimento que cria.

Para alguns, porém, as coisas não são tão simples assim. “Existe um cinema de propaganda política que o governo está fazendo na chamada Villa del Cine”, disse o diretor Jonathan Jakubowicz, “mas isso não tem nada a ver com cultura nem com os cineastas. Seu objetivo é avançar em direção ao socialismo.”

Para Jakubowicz, o CNAC impede que os projetos falem da realidade do país, dizendo que são escolhidos apenas “entretenimentos escapistas”. Diz ainda que, devido aos custos altos, é “quase impossível” fazer cinema sem o apoio do governo, o que obriga a uma supervisão do roteiro.

O primeiro filme do diretor, “Secuestro Express”, de 2005, marcou um recorde de bilheteria nacional no segundo boom do cinema venezuelano. O filme, que mostra uma sociedade dividida e violenta, foi mal recebido pelo governo. Mas “Secuestro” não conseguiu superar a bilheteria de “Macu, La Mujer del Policía” (1987), do diretor Solveig Hoogesteijn, que teve um público de 1,5 milhão de pessoas ao contar a história real de um crime cometido por uma autoridade devido a ciúmes.

A produtora norte-americana Miramax comprou os direitos de distribuição de “Secuestro Express” e hoje Jakubowitz está trabalhando em Los Angeles em seu segundo projeto, “La Reina del Sur”, que será rodado na Espanha e no México.

De acordo com o CNAC, a produção de um filme nacional custa cerca de 1,5 milhão de dólares e, até agora, o mais caro foi “Miranda Regresa” (2006), feito com 2 milhões de dólares.

O CNAC promove dois concursos por ano “nos quais são escolhidos entre uma e 15 propostas, segundo as verbas disponíveis”, explicou Lossada. Os projetos recebem apoio em qualquer fase de sua criação, produção e difusão, incluindo a publicidade.

“Nós nem sequer sugerimos tópicos. Qualquer pessoa que acha que tem uma boa idéia pode propor o projeto a uma comissão multidisciplinar”, disse Lossada.

MERCADO PEQUENO PROCURA PÚBLICO

Em 2007, cerca de 25 milhões de espectadores foram ao circuito comercial de cinema, que arrecadou 94 milhões de dólares. O filme mais visto foi “Harry Potter e a Ordem da Fênix” (887 mil pessoas), segundo dados do CNAC.

Por outro lado, foram lançadas 15 produções nacionais, sendo a mais popular “13 Segundos”, de Freddy Fadel, que não teve apoio financeiro do Estado mas conseguiu atrair 378 mil espectadores aos cinemas.

Com um público pouco acostumado ao cinema nacional, apenas 1,3 milhão de pessoas foram assistir a todas as produções venezuelanas em 2007, mostrando que a difusão do cinema nacional é um desafio.

A jornalista Ninoska Dávila, que tem grande experiência em divulgação de cinema, acha que a imprensa venezuelana não está acostumada a fazer as resenhas de tantas produções nacionais.

“Os filmes venezuelanos têm dificuldade em competir porque não existe coordenação para sua distribuição ao longo do ano”, disse Dávila, acrescentando que as estréias se sobrepõem e que há também vazios no calendário.

Ao mesmo tempo, o cinema venezuelano quer conquistar prestígio no exterior. Um de seus projetos mais ambiciosos é “Toussaint”, sobre o líder independentista haitiano François Toussaint-Louverture, que será dirigido pelo ator Danny Glover, protagonista de “Máquina Mortífera” e admirador de Chávez.

O filme vai custar 30 milhões de dólares, dos quais a Venezuela vai contribuir com cerca de 20 milhões.

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