ESTRÉIA-Bressane recria mito em português no filme "Cleópatra"

quarta-feira, 21 de maio de 2008 09:18 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Cleópatra é uma das personagens mais famosas da História e já foi objeto de diversos filmes. O mais famoso é de 1963, protagonizado por Elizabeth Taylor, que se tornou notório também por ter sido um fracasso retumbante e quase ter falido o estúdio Fox. A rainha do Egito, no entanto, jamais havia falado em português, como no filme de Júlio Bressane, "Cleópatra", que estréia no Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e Curitiba.

"Cleópatra" ganhou vários prêmios no Festival de Brasília no final do ano passado. Quando foi anunciado como melhor filme, gerou protestos na platéia, que vaiou o diretor.

Bressane, por sua vez, respondeu com ironia ao subir ao palco para receber o troféu, mostrando o cheque de 80 mil reais e agradeceu "gentileza e inteligência de todos".

Com uma carreira marcada por obras como "Matou a Família e Foi ao Cinema" e "Tabu", Bressane nunca foi um cineasta dado a convencionalismos. Não seria agora, por tratar de um personagem tão conhecido, que ele o faria. Para recriar o mito, o diretor baseou-se em textos do filósofo e prosador grego Plutarco.

Ao mesmo tempo, valeu-se da sonoridade da língua portuguesa nos diálogos, buscando referências em poetas de Camões a João Cabral de Mello Neto.

"Cleópatra" está mais próximo do teatro e da ópera à medida que o cineasta constrói uma espécie de "tableau vivant" (quadro vivo) em cada cena, com uma câmera parada e a fotografia esmerada de Walter Carvalho ("Crime Delicado"). Para criar esse retrato intimista, o diretor fez uma pesquisa iconográfica com as representações da rainha, de outras figuras históricas e sua época ao longo dos séculos.

Cleópatra (Alessandra Negrini, premiada no Festival de Brasília/07) é descendente de Ptolomeu e frequentou desde pequena a biblioteca da Alexandria, onde foi preparada para ser uma governante. Porém, o avanço da civilização romana ameaça a hegemonia dos egípcios. Para manter o seu poder, a rainha acaba seduzindo os imperadores romanos Júlio César (Miguel Falabella) e depois Marco Antonio (Bruno Garcia).

Choque de culturas e civilizações é um tema recorrente no cinema e literatura. Bressane faz disso uma mola sutil para impulsionar "Cleópatra".

O esforço da rainha para manter a cultura heleno-egípcia da qual é protetora diante do avanço romano pode ser lido como uma representação dos tempos atuais de globalização, quando grandes impérios econômicos tentam engolir culturas locais em prol de um mundo homogêneo e facilitado. Enquanto isso, os pequenos tentam manter suas tradições diante desta nova realidade.   Continuação...