24 de Junho de 2008 / às 00:04 / em 9 anos

Carnegie Hall vira "templo" da bossa nova com João Gilberto

* Repete texto para esclarecer que “O Pato” é de autoria dos compositores Jayme Silva e Neuza Teixeira, e não de João Gilberto.

Por Adriana Garcia

NOVA YORK (Reuters) - O homem, uma cadeira, um violão. Nada de jogos de luz, cenografia ou efeitos especiais. Era só João Gilberto, que repetiu timidamente seu ritual de décadas no palco do Carnegie Hall na noite de domingo para rezar a fina liturgia da bossa nova.

No ano em que o movimento musical completa 50 anos, Gilberto voltou ao palco do teatro nova-iorquino que ajudou a espalhar o ritmo para o mundo e fez dele um ícone. Foi aplaudido em pé logo na entrada.

Destilou 22 músicas em pouco menos de duas horas, misturando, como esperado, sambas antigos que dão saudade da Bahia e sucessos que refletiam os romances de um Rio de Janeiro idílico e urbano no final dos anos 1950 e começo dos 1960.

Cabisbaixo, ele simplesmente sentou-se sem olhar para as mais de 2.000 pessoas que o observavam com veneração e disparou “Doralice”, de Dorival Caymmi, seguida dos clássicos “Chega de Saudade” e “Corcovado”.

De olhos quase sempre fechados, seguiu em frente com “Morena Boca de Ouro”, de Ary Barroso, e “Preconceito”, sucesso dos anos 1940 na voz de Orlando Silva.

Cantou então “O Pato”, de Jayme Silva e Neuza Teixeira, que gerou aplausos logo na introdução, assim como no início de várias outras músicas, e “Aos Pés da Santa Cruz”, um samba de Marino Pinto e Zé da Zilda.

Hora de começar a oitava música, hora de pedir ajustes técnicos. “Desculpa, um pouco mais de violão”, disse Gilberto sussurradamente em inglês ao microfone.

E o show continuou, com a platéia contida para não atrapalhar o gênio. Seguiram-se “Caminhos Cruzados” (“Quando um coração cansado de sofrer, encontra outro coração, cansado de sofrer”...), “Samba de Uma Nota Só” e “Estate”, em italiano.

Mas quem estava começando a sofrer no palco era ele.

“Obrigado. Desculpa falar, tem um ventinho aqui na minha cabeça, me faz um pouco afônico”, disse o cantor.

“Uncomfortable (desconfortável)”, acrescentou.

João Gilberto teve que reclamar novamente e esperar mais algumas músicas -- “olha o meu ventinho outra vez” -- para que o ar-condicionado fosse desligado, e ele pudesse prosseguir tranquilo.

Fez mudanças sutis em tudo o que cantou. Subtraiu compassos, acelerando ou desacelerando o andamento da música. E se “Samba de Uma Nota Só” é apenas um sambinha de uma nota só, a complexidade harmônica com a qual a envolveu é a melhor tradução da arte que só João Gilberto consegue fazer.

Em diversos momentos, simplificou ainda mais a batida que criou, fazendo do violão apenas uma guia para sua requintada ginga vocal.

Também brincou com letras. Em “Lígia”, excluiu o nome da musa de Tom Jobim, fazendo com que soasse conhecida e ao mesmo tempo diferente. Do compositor mais famoso da bossa nova, cantou também “Samba do Avião” e “Desafinado”, esta última parceria com Newton Mendonça, entre outras.

Nessa altura, a platéia já enfrentava calor no Carnegie Hall, mas continuava vidrada. Gilberto se levantou depois da vigésima música e, ovacionado, saiu de fininho.

Voltou rápido para o bis, e disse que iria cantar uma música da sua infância. Era uma versão de Braguinha em português para “God Bless America”, de Irvine Berlin, e terminou a noite com o clássico dos clássicos, “Garota de Ipanema”.

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