29 de Maio de 2008 / às 14:19 / em 9 anos

ESTRÉIA-"Corpo" faz suspense com história sobre ditadura militar

SÃO PAULO (Reuters) - Legistas podem dar bons personagens no mundo da ficção, por explorarem a fronteira muitas vezes frágil entre a vida e a morte. Esse potencial dramático é usado no longa brasileiro “Corpo”, que estréia em São Paulo na sexta-feira, e traz como protagonista um médico dessa especialidade, interpretado por Leonardo Medeiros.

Ele é Artur, um legista que parece ter mais tato para lidar com os mortos do que com os vivos, tamanha a sua falta de habilidade para o trato social. Mas isso não o preocupa, pois ele está acomodado em sua rotina, dividindo o tempo entre o trabalho e cuidando dos pais.

Para introduzir uma dose de ficção no seu cotidiano, Artur gosta de inventar histórias sobre as pessoas que examina, bem como as condições em que morreram. E também gosta de imaginar a vida dos que ainda não morreram, como as pessoas que ele encontra nas ruas, no metrô -- o que parece lhe dar um status acima de todos.

Tudo muda quando chegam à mesa de Artur um punhado de ossos e um corpo encontrado em uma vala comum. A supervisora do departamento (Chris Couto) acredita que o corpo é mais recente que a ossada, cuja origem pode estar relacionada com o regime militar.

Surge uma discordância entre os dois porque, para Artur, o corpo tem cerca de 30 anos e, por alguma razão misteriosa, se manteve preservado.

O legista terá pouco tempo para provar sua teoria -- se não for identificado em um dia, o corpo será enterrado como indigente.

Com muita sorte, ele encontra pistas nos porões da ditadura de que o cadáver era de uma guerrilheira. Por meio do nome dela, descobre que tem uma filha (Rejane Arruda) e encontra a garota -- muito semelhante à suposta mãe, aliás.

Aos poucos, “Corpo” vai sendo montado como um quebra-cabeças. A garota, chamada Fernanda, diz não ser filha da guerrilheira e que sua mãe (Louise Cardoso) está viva. Esta, por sua vez, é um homônimo da falecida, Teresa Prado Noth.

Os diretores e roteiristas estreantes, Rossana Foglia e Rubens Rewald, trabalham com uma idéia bastante comum em literatura e cinema: o duplo.

Nessa jornada, nunca fica muito claro o que é real, lembrança ou delírio de Artur. O passado surge dialogando com o presente. Assim, discute-se não a ditadura em si, mas suas implicações, anos depois de seu fim.

O trabalho dos atores é o que sobrevive melhor em “Corpo”. Embora viva um personagem calcado em clichês -- um legista sombrio, tal qual sua sala, e solitário, como os corpos que examina --, Medeiros consegue transformar Artur num ser humano.

Por Alysson Oliveira, do Cineweb

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