30 de Janeiro de 2008 / às 20:31 / 10 anos atrás

Escola de samba retira ala Hitler e suásticas após protesto

Por Pedro Fonseca

RIO DE JANEIRO (Reuters) - A preocupação de entidades judaicas com referências ao Holocausto no Carnaval levou uma escola de samba do Rio de Janeiro a cortar de seu desfile uma ala chamada Hitler e fantasias com a cruz suástica.

A decisão da Estácio de Sá, do Grupo de Acesso carioca, acontece ao mesmo tempo em que um carro da Viradouro representando o Holocausto despertou a preocupação do Centro Simon Wiesenthal, um dos mais importantes grupos internacionais judaicos de direitos humanos.

Após o vazamento na Internet de uma foto das fantasias militares com a suástica, a Federação Israelita do Rio de Janeiro (Fierj) fez um pedido à Estácio de Sá para que o símbolo fosse retirado do desfile.

"Nós pedimos para não utilizar a simbologia nazista, que é contra a lei brasileira", disse por telefone o assessor de imprensa da Fierj, José Roitberg, nesta quarta-feira.

O diretor de Carnaval da escola, Marcos Aurélio Fernandes, respondeu em carta recebida pela Fierj nesta quarta-feira dizendo que "as fantasias contendo desenhos com a cruz suástica, bem assim a ala Hitler, foram abolidas do nosso Carnaval".

Uma cópia da carta da escola, datada de terça-feira, foi obtida pela Reuters.

A ala Hitler, composta por um carro alegórico representando um tanque, fazia referência à 2a Guerra Mundial. O confronto teria sido previsto pelo profeta Nostradamus, que será lembrado pela escola no enredo "O Futuro da História", de acordo com um diretor da agremiação.

O carro continua no desfile, e os componentes sairão vestidos apenas como militares, segundo a escola.

CARRO DO HOLOCAUSTO

Enquanto isso, o carro sobre o Holocausto da Viradouro, com várias esculturas de cadáveres esqueléticos, segue polemizando. O Centro Wiesenthal reforçou um pedido da Fierj à escola para que o carro fosse retirado do desfile.

Em documento endereçado ao presidente da escola, Marco Lira, o diretor de relações internacionais do Centro Wiesenthal, Shimon Samuels, e o representante da entidade para a América Latina, Sergio Widder, pediram que o "Carnaval não seja utilizado para profanar a memória do Holocausto", resultado da política de extermínio de judeus de Adolf Hitler.

"... Mais que um chamamento a favor da consciência acerca do horror, um desfile com música, mulheres e homens seminus dançando alegremente, e o lógico ambiente festivo associado ao Carnaval, resulta absolutamente inapropriado fazer uma lembrança às vítimas do Holocausto e é um espetáculo abominável para os sobreviventes e suas famílias", disse a carta, enviada a partir de Buenos Aires, com data de terça-feira.

A Viradouro informou, através de uma funcionária da escola, que os diretores e o carnavalesco da agremiação, Paulo Barros, estão estudando as cartas e não informaram se pretendem modificar a alegoria ou retirá-la do desfile.

Em entrevista à Reuters esta semana, Barros defendeu o carro e afirmou que no Brasil não existe censura. A alegoria faz parte do enredo "É de Arrepiar".

Segundo Barros, o Holocausto representa "o arrepio que a gente não quer mais sentir".

O desentendimento do Carnaval com representantes judeus relembra vários incidentes dos organizadores da festa com a Igreja Católica. O mais famoso conflito ocorreu em 1989, quando a Beija Flor foi impedida pela Justiça de levar à avenida uma escultura do Cristo Redentor mendigo.

Em 2000, a Grande Rio trocou uma imagem de Nossa Senhora por uma pomba, para evitar censura, após a Unidos da Tijuca ter tido uma imagem da santa apreendida pela polícia após queixa da Igreja.

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