ESTRÉIA-Comédia italiana revê divisão política de anos 60 a 2000

quinta-feira, 31 de julho de 2008 12:57 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - O título "Meu Irmão é Filho Único" sugere uma comédia italiana à moda antiga. Mas o filme assinado pelo diretor Daniele Lucchetti avança além do humor para retratar uma família operária dividida por questões ideológicas e morais entre os anos 1960 e 2000. O filme estréia em São Paulo e Rio de Janeiro.

Aos 48 anos, Lucchetti é, ao lado de Nanni Moretti, um dos principais diretores italianos da atualidade. Ele venceu quatro prêmios David de Donatello, o principal da Itália, para "Meu Irmão é Filho Único", seu 12o filme. Os prêmios foram de melhor ator (Elio Germano), atriz coadjuvante (Angela Finocchiaro), montagem e roteiro.

O roteiro, aliás, foi adaptado do livro "Il Fasciocomunista", de Antonio Pennacchi, pelo próprio diretor com a parceria da dupla Sandro Petraglia e Stefano Rulli, autores do script da minissérie "A Melhor Juventude" (2003), de Marco Tullio Giordana, exibida na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Nada melhor do que uma história em torno de dois irmãos para simbolizar a divisão que no começo dos anos 60 agitava a Itália. Na família Benassi, moradora de Latina, cidade-modelo perto de Roma criada por ninguém menos que Benito Mussollini, Manrico (Riccardo Scamarcio) é o filho mais velho. Bonito, carismático, operário e de esquerda, assim como o pai (Massimo Popolizio), ele é querido por todo mundo.

O filho caçula, Accio (quando adulto, interpretado por Elio Germano, de "Respiro"), é o contrário. Rebelde e teimoso, tenta muitos caminhos e fracassa não por incapacidade mas por sua maneira muito pessoal de ver as coisas.

Quando garoto, Accio pensava em tornar-se padre, mas acaba expulso do seminário por mau comportamento. Universidade e Exército também não são para ele. O rapaz termina seduzido pelo discurso falsamente grandioso das brigadas neofascistas de sua cidade, sufocada pela pobreza e a falta de horizontes.

Comunistas e sindicalistas, líderes de greves, o pai e o irmão reagem violentamente a esta escolha. A mãe (Angela Finocchiaro) e a irmã Violetta (Alba Rohrwacher) também não compreendem Accio. Mas, como nas melhores comédias italianas, todo mundo briga e a família continua morando sob o mesmo teto.

De maneira consistente, o diretor passa em revista algumas das décadas mais incendiárias da história recente da Itália. Examina inclusive a radicalização da esquerda italiana em direção ao terrorismo, em movimentos como as Brigadas Vermelhas. Ao mesmo tempo, mantém o foco no intimismo, expondo os sentimentos complexos que mantêm sempre em contato os dois irmãos, por mais opostos que sejam.

Evitando o maniqueísmo, o filme não perde o ritmo. E o que é melhor, a história prossegue sempre temperada por ironia e humor que atenuam, mas não banalizam, os assuntos densos que aborda.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)