Justiça proíbe Viradouro de levar carro do Holocausto à Sapucaí

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008 09:02 BRST
 

Por Pedro Fonseca

RIO DE JANEIRO (Reuters) - A Justiça do Rio de Janeiro proibiu nesta quinta-feira a escola de samba Viradouro de levar para a avenida no domingo o carro alegórico do Holocausto, representado por vários cadáveres nus empilhados e que teria uma pessoa vestida de Hitler sobre os corpos.

A juíza Juliana Kalichszteim, plantonista da Justiça estadual, concedeu liminar em favor da Federação Israelita do Rio de Janeiro (Fierj) determinando multa de 200 mil reais caso a escola leve à Marquês de Sapucaí a parte do carro que retrata o extermínio. O carro é formado apenas por esculturas de cadáveres, cercados por centenas de pares de sapatos perdidos.

Se houver algum membro da agremiação fantasiado de Hitler, há uma multa adicional de 50 mil reais, de acordo com liminar assinada pela juíza nesta quarta-feira. A presença de alguém representando Hitler na alegoria não foi confirmada pela escola, mas consta em roteiro do desfile entregue esta semana à Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa).

A Viradouro, por meio de sua assessoria de imprensa, informou que ainda não foi notificada oficialmente pela Justiça e que ainda não está decidido se vai ou não recorrer.

"Um cara fantasiado de Hitler em cima de judeus mortos é brincadeira", disse à Reuters o presidente da Fierj, Sérgio Niskier, nesta quinta-feira. "Isso passa do limite do razoável. Não tem como aceitar isso."

Nesta semana, a Fierj e o instituto internacional judaico de direitos humanos Centro Simon Wiesenthal enviaram cartas à Viradouro solicitando que o carro fosse retirado do desfile, mas a escola não teria apresentado resposta.

O carnavelasco da Viradouro, Paulo Barros, defendeu o carro em entrevista recente à Reuters, e disse que no Brasil não existe censura. A alegoria faz parte do enredo "É de Arrepiar". Segundo Barros, o Holocausto representa "o arrepio que a gente não quer mais sentir".

Na liminar, a juíza afirma que o Carnaval "não deve ser utilizado como ferramenta de culto ao ódio, qualquer forma de racismo, além da clara banalização dos eventos bárbaros e injustificados praticados contra... cerca de seis milhões de judeus, e liderados por figura execrável chamada Adolf Hitler."

A Fierj também havia solicitado a outra escola, a Estácio de Sá, que retirasse de seu desfile uma ala chamada Hitler, que teria componentes fantasiados de militares com a cruz suástica em suas roupas. A agremiação, do grupo de acesso do Carnaval carioca, decidiu acatar a solicitação.

O desentendimento do Carnaval com representantes judeus relembra vários incidentes dos organizadores da festa com a Igreja Católica. Em 1989, a Beija Flor foi impedida pela Justiça de levar à avenida uma escultura do Cristo Redentor mendigo.