ESTRÉIA-Nanni Moretti lida com a dor da perda em "Caos calmo"

quinta-feira, 2 de outubro de 2008 12:35 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Nos últimos anos, o diretor e ator italiano Nanni Moretti criou uma marca registrada em seu cinema, combinando cinismo, humor e reflexão. Embora ele não dirija "Caos Calmo", que estréia em São Paulo nesTa sexta-feira, é possível encontrar a força do seu cinema nesse longa, até porque o filme traz Moretti como protagonista e co-roteirista.

"Caos Calmo" é baseado no livro homônimo de Sandro Veronesi e as comparações entre este filme e "O Quarto do Filho" -- um dos mais famosos de Moretti -- são inevitáveis. Mas as duas obras lidam com a perda de formas diferentes.

Aqui, Moretti é Pietro Paladini, um executivo cuja mulher repentinamente morre no exato momento em que ele e o irmão Carlo (Alessandro Gassman) salvam duas mulheres que se afogavam numa praia. O protagonista fica preocupado com a filha pequena, Claudia (Blu Yoshimi), que parece não reagir diante da tragédia. Ele também tem uma reação estranha e não desabou em lágrimas.

Quando começam as aulas da menina, Pietro promete que não sairá da frente da escola enquanto ela estiver lá. O que parece ser uma promessa de brincadeira se torna real. O executivo não vai trabalhar e fica postado num banco de um parque, observando as pessoas -- em especial as mães -- enquanto a filha estuda. Um dia se transforma em dois.

E assim começa uma nova rotina na vida de Pietro, que todos os dias se posta à frente da escola. Familiares e amigos ficam preocupados e tentam convencê-lo de que deve voltar ao trabalho e deixar de lado esse comportamento surreal. Mas, aos poucos, eles o procuram por outros motivos: Pietro se torna uma espécie de conselheiro.

As pessoas querem lhe contar os seus problemas, querem sugestões de como agir e se comportar diante do caos que se instalou em suas vidas. Ele também começa a prestar atenção em uma bela jovem que sempre passeia com seu cachorro pelos arredores.

O diretor Antonello Grimaldi poderia facilmente cair num sentimentalismo barato e transformar "Caos Calmo" num vale de lágrimas de tristeza ou redenção -- mas ele evita todas as armadilhas. Um menino, portador de Síndrome de Down, por exemplo, com quem Pietro interage, se torna o catalisador para o autoconhecimento do protagonista e sua relação com os outros.

Pela primeira vez desde "Três vidas e uma só morte" (1996), Moretti apenas atua e não dirige um filme. Aqui, ele é a alma e o coração da história, unindo os pequenos dramas que lhe são contados, e tentando lidar com seu próprio problema, sendo pai e mãe da filha ao mesmo tempo.

Ganhador de três prêmios David Di Donatello (música, canção original e ator coadjuvante para Gassman), "Caos Calmo" causou certa polêmica na Itália, quando lançado no início do ano, por conta de uma cena de sexo. Talvez a discussão nem seja pela cena em si -- que tem muito pouco de explícita -- mas pela figura de Moretti, que é visto como uma espécie de Woody Allen italiano, cujos filmes falam muito sobre sexo, mas não mostram nada. No entanto, no contexto do filme, o momento não é gratuito e diz muito sobre os personagens.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)