October 13, 2008 / 3:11 PM / 9 years ago

ENTREVISTA-Paulo Coelho se lança como pioneiro nas mídias online

6 Min, DE LEITURA

<p>O escritor Paulo Coelho comenta sobre o aspecto promocional da pirataria e os m&eacute;ritos art&iacute;sticos dos blogues na Internet na Feira de Livros de Frankfurt nesta semana.Shamil Zhumatov</p>

PARIS (Reuters Life!) - O poder promocional da pirataria e os méritos artísticos dos blogues na Internet serão alguns dos temas a serem comentados pelo escritor Paulo Coelho em seu discurso inaugural na Feira de Livros de Frankfurt esta semana.

O brasileiro de 61 anos, responsável por títulos como "O Alquimista" e "Onze Minutos", está ganhando reputação de pioneiro digital, graças a sua adesão entusiasmada às mídias online.

Além de um blog pessoal, Paulo Coelho tem perfis espalhados por várias redes de relacionamento social. Ele utiliza a ferramenta de blogging móvel "Twitter" e regularmente envia vídeos ao YouTube, sob a rubrica Privacidade Zero. Alguns anos atrás ele começou a distribuir versões digitais de seus livros de graça na Internet.

Veja a entrevista concedida pelo escritor ao correspondente da Reuters Television Matt Cowan em seu apartamento em Paris.

Pergunta: Por que razão você faz tudo isso?

Resposta: Pela diversão. É um prazer. Não sou uma pessoa que socializa muito bem. Não vou a coquetéis -- não vou a festas, de maneira geral. Descobri esse mundo fantástico atrás da Web que me ajuda muito como profissional, como escritor.

P: O ajuda de que maneira?

R: Não é apenas uma maneira de permanecer engajado, como os fundamentos de qualquer trabalho escrito são as pessoas e os conflitos humanos. As pessoas relutam muito em falar de suas vidas privadas, mas são muito mais abertas na Internet. É claro que elas adotam uma persona. Nunca se pode saber se essa persona é verdadeira ou não, mas, em última análise, até a persona tem uma boa história a contar.

P: Por que você acha que vale a pena escrever um blog?

R: Se você perguntasse aos monges da Idade Média o que pensavam de Gutemberg e da impressão, eles diriam "de que valem alguns livros impressos? Estamos aqui, desenhando cada letra com bela caligrafia. Isto é arte. Isto é sagrado, e o processo de impressão inventado por Gutemberg não quer dizer nada". Acho que estamos na mesma situação hoje. As pessoas podem mostrar e expressar o que sentem, em imagens, textos e filmes. Todo mundo possui um potencial criativo, e a partir do momento em que você pode expressar esse potencial criativo, você começa a mudar o mundo.

P: Mas você não teve o objetivo de tornar-se pioneiro digital.

R: No início, era uma maneira de conseguir informações para escrever livros. Depois você sente que deve algo -- que está recebendo, mas não dando. Então você começa a dar e percebe como é importante dar. Se você for a meu blog, encontrará muitas coisas gratuitas. E isso me faz vender menos ou mais livros? Ninguém sabe. Vou à Feira de Livros de Frankfurt para falar justamente disso. Não sei se vendo livros, mas sei que estou compartilhando minha alma. Essa é a meta de qualquer artista.

P: Você está entusiasmado com a multimídia como alternativa aos livros?

R: Como escritor, fico entusiasmado em viver tudo. Acabo de criar um filme com meus leitores. Durante um ano peguei um de meus livros, "A Bruxa de Portobello," e disse aos leitores: "Vocês têm que escolher um personagem e fazer um filme com ele". Mais de 6.000 pessoas participaram do concurso. Selecionei 15 delas e temos um filme fantástico.

P: Por que você se interessa tanto por redes de relacionamentos sociais?

R: Não é que eu esteja cansado de escrever livros. Mas acho instigante escrever para novas plataformas, porque isso desafia você a utilizar linguagens novas. É preciso ser direto. Eu sou muito direto em meus livros, mas, mesmo assim, a Internet tem uma estrutura de escrita diferente. E estou aprendendo. É isso o que me instiga. É como se eu estivesse num reino novo agora. Sem deixar de lado meus livros, estou expandindo meu universo.

P: Fale da idéia por trás do Privacidade Zero.

R: A idéia é que a privacidade zero é uma realidade. Não temos mais vida privada. Então comecei a colocar (no YouTube) vídeos de coisas que me acontecem. É claro que a primeira reação do chamado pessoal de marketing das editoras foi dizer "está errado, você precisa conservar uma aura de mistério. Você deveria estar numa torre de marfim, sem ninguém saber o que você está fazendo." Eu disse a eles "tudo bem, mas nesse caso eu não me divertiria."

P: Você não se preocupa com sua segurança ou com fãs desequilibrados?

R: John Lennon foi assassinado antes da chegada da Internet. Se você pensar nessas coisas, não fará nada. Então, sim, é preciso assumir riscos.

P: Qual é o significado da decisão da HarperCollins de produzir versões eletrônicas gratuitas de alguns de seus livros?

R: Tive uma grande executiva-chefe na HarperCollins, Jane Friedman. Recebi uma ligação dela e disse que não podia voltar atrás no que eu tinha dito (quando, numa conferência, mencionou que disponibilizaria seus livros gratuitamente em seu Web site). Eu disse "vamos resolver o problema, não vamos voltar ao passado." A HarperCollins criou um site no qual você pode ler o livro, mas não pode baixá-lo. Então eu digo "uau."

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