ESTRÉIA-Em "Lorna", Dardennes mudam estilo, mas mantêm temática

quinta-feira, 6 de novembro de 2008 15:02 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Ao longo dos últimos anos, os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne desenvolveram um cinema com suas próprias características, abordando questões sociais por um ângulo humanista. Vencedor do prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes 2008, o novo trabalho dos diretores, "O Silêncio de Lorna", que estréia em São Paulo, marca algumas mudanças.

Na verdade, os irmãos-cineastas parecem fazer alguns ajustes ao seu estilo, aperfeiçoando-o assim. Desta vez, a câmera é mais contemplativa - o que não quer dizer estática - e há até um pouco de trilha sonora. Já no campo temático, o longa é mais uma vez o reflexo do mal-estar da Europa contemporânea que parece silenciar diante de seus problemas sócio-econômicos.

Pela primeira vez, os cineastas situam a ação fora de sua cidade natal, Seraing, deslocando-a para um lugar mais cosmopolita com forte poder de atração sobre imigrantes estrangeiros, no caso, a cidade de Liège. No centro da ação está a jovem albanesa Lorna (Arta Dobroshi), uma imigrante casada com um belga, Claudy (Jérémie Renier, presença constante nos filmes dos diretores, como "A Criança"). Acontece que o rapaz é viciado em drogas e está num estágio avançado, sempre correndo o risco de uma overdose.

A situação cria um impasse para Lorna. De um lado, Lorna tem seus próprios planos. Ela quer se casar com seu namorado albanês, Sokol (Alban Ukaj), e abrir um restaurante na Bélgica. Para completar o dinheiro necessário, antes disso, deve entrar em mais um casamento arranjado a troco de dinheiro. Assim sendo, precisa se livrar de alguma forma do marido - o divórcio não é uma opção muito viável - e se casar por um tempo com um mafioso russo. Por outro lado, ela tem carinho por Claudy e não quer, com o abandono, ser responsável por sua morte.

Assim dividida, ela é pressionada por um sujeito que organiza os casamentos entre imigrantes e nativos, que não quer perder muito tempo para faturar com mais uma transação.

O roteiro de "O Silêncio de Lorna" entra no campo da culpa e expiação. A trajetória de Lorna é como a dos outros protagonistas dos filmes destes cineastas: uma personagem que passa por um calvário rumo a uma redenção. A atriz Arta Dobroshi, virtualmente presente em todas as cenas do filme, com sua expressão ao mesmo tempo melancólica e assustada, traduz todo o conflito da personagem.

Ganhadores de duas Palmas de Ouro ("Roseta", 1999, e "A Criança", 2005), os irmãos Dardenne se consolidam a cada filme como alguns dos cineastas mais instigantes e importantes da atualidade. Seus filmes abordam questões relevantes, sem levantar bandeiras, mas explicitando a sociedade em que vivemos e os sintomas da insensatez da humanidade.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)