20 de Novembro de 2008 / às 14:44 / em 9 anos

ESTRÉIA-Selton Mello estréia na direção com drama "Feliz Natal"

SÃO PAULO (Reuters) - Ator consagrado na tevê e no cinema, Selton Mello faz uma estréia segura na direção com o filme "Feliz Natal", vencedor de três prêmios no Festival de Paulínia (SP), em julho passado: melhor direção, atriz coadjuvante - dividido entre Darlene Glória e Graziella Moretto - e uma menção especial. O filme chega aos cinemas do país nesta quinta-feira.

Interpretada por Darlene Glória, Mércia é a matriarca de um clã marcado pela melancolia e a solidão - cada um a seu modo. Talvez por ser aquela que perdeu de vez o contato com a realidade, ela é a que menos se importa com as aparências que seu filho Theo (Paulo Guarnieri) e nora, Fabiana (Graziella Moretto), tentam manter.

Na ceia de Natal, conturbada por natureza e ainda mais complicada com a volta da ovelha-negra da família, Caio (Leonardo Medeiros), a mãe solta palavrões e implora por carinho e atenção dos filhos.

A chegada de Caio, por sua vez, representa a necessidade de rever o passado - que sempre todos tentaram varrer para debaixo do tapete. Ele vive distante de todos, trabalhando um ferro-velho que montou numa cidade do interior. O retorno à capital tem mais a ver com seus antigos fantasmas pessoais do que com saudades da família.

Com roteiro assinado por Selton e Marcelo Vindicatto, "Feliz Natal" vai fundo na máxima do escritor russo Liev Tolstoi, que dizia que as famílias infelizes o são cada uma à sua maneira.

Aqui, não há muita chance para a redenção, afinal, este é também um filme sobre a perda da inocência. Cada personagem tem seu drama muito bem delineado e de forma bastante convincente a ponto de humanizá-los, não transformá-los em monstros, embora, em alguns momentos, suas atitudes possam ser bem monstruosas uns com os outros.

Fabiana, infeliz e insegura, desconta nos filhos, marido e sogra a sua insatisfação, ao perceber que está deixando a vida passar. Já seu marido parece ter desistido de vez de cuidar de si mesmo e da família, deixando-se levar pelos problemas, embora ele seja o pilar de sustentação dos outros. O pai, Miguel (Lucio Mauro), está casado com uma garota que tem idade para ser sua neta.

Mas é em Mércia e Caio que recai o peso maior. Ela busca nele tudo aquilo que nenhum dos outros lhe dá, sem perceber que ele não tem nada de especial, que também é frágil.

Muito condizentes com essas opções de narrativa e personagens estão a fotografia, montagem e trilha sonora de "Feliz Natal". Assinada por Lula Carvalho ("Tropa de Elite"), a fotografia, muitas vezes com uma câmera na mão leve que segue os atores, e com iluminação natural do ambiente, traduz em imagens, cores e texturas o desconforto dos personagens. Já a trilha, assinada pelo músico e produtor Plínio Profeta, é capaz de criar climas sem ser excessiva - muito pelo contrário.

Darlene Glória brilha como não tinha chance de fazer há muito tempo. A sua personagem aqui é como uma releitura, décadas depois, daquela que fez em "Toda Nudez Será Castigada" (1973) - uma das maiores interpretações do cinema brasileiro. Boa parte do mérito é dela, claro, mas outra parte pertence ao diretor, que estréia com a segurança e um comando da linguagem cinematográfica de fazer inveja a muitos veteranos.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são de responsabilidade do Cineweb

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