11 de Dezembro de 2008 / às 17:39 / 9 anos atrás

Aos 100 anos, diretor português Oliveira segue trabalhando

Por Axel Bugge

LISBOA (Reuters) - O decano do cinema português comemorou seu 100o aniversário na quinta-feira, iniciando a produção de seu filme mais recente.

Numa indústria preocupada com o glamour juvenil, talvez seja difícil imaginar como Manoel de Oliveira consegue continuar fazendo filmes. Mas o centenário ainda vigoroso parece ter poucos segredos que expliquem sua longevidade, exceto por sua paixão pelo cinema.

“Este é o único dia da semana em que eu descanso”, disse ele a jornalistas no sábado, quando interrompeu sua programação agitada para conceder uma rara entrevista coletiva à imprensa.

Indagado sobre qual é seu segredo para continuar ativo aos 100 anos, respondeu com humor discreto: “É o trabalho. O resto é comer, beber, dormir, fazer o que as outras pessoas fazem”.

Oliveira, que é aclamado como poucos outros em seu país, fez seu primeiro filme 77 anos atrás - “Douro Faina Fluvial”, um documentário de 30 minutos sobre a vida no rio Douro.

Desde então ele já dirigiu quase 50 filmes e recebeu diversos prêmios, incluindo dois Leões de Ouro em Veneza e uma Palma de Ouro em Cannes este ano pelo conjunto de sua obra.

A maioria das pessoas reduz suas atividades com a idade, mas Oliveira vem fazendo o contrário. Desde 1990 faz pelo menos um filme por ano, e não há final à vista em seus planos.

No ano passado ele concluiu “Cristóvão Colombo - O Enigma”, em que sugeriu que Colombo fosse português. Além disso, ele e sua mulher atuaram no filme.

Nascido numa família industrial no norte de Portugal, Oliveira começou querendo ser ator. Dez anos atrás, ele disse que estava compensando o tempo perdido.

Entre 1942, quando completou seu aclamado trabalho neo-realista “Aniki Bobó”, até a morte do ditador Antonio Salazar, em 1970, ele só conseguiu produzir um longa-metragem. Ele passou os anos do governo Salazar trabalhando nos negócios da família e chegou a ser preso pela polícia secreta.

O ritmo em seu filme mais recente, uma adaptação de ”Singularidades de uma rapariga loura“, do escritor realista português Eça de Queiroz,” não dá sinais de estar diminuindo. Oliveira diz que o filme precisa ficar pronto a tempo de ser exibido no Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro.

Muitos de seus filmes são ambientados no Porto, e o relativo atraso de partes do norte de Portugal acrescentaram elementos de mistério e superstição a seus trabalhos.

Oliveira também criou obras mais sombrias, como “Inquietude”, cujo tema é a morte, e “Os Canibais”, a história de uma mulher que comete suicídio no dia de seu casamento. Os relacionamentos atormentados entre homens e mulheres estão presentes em muitos de seus filmes.

Mas a idade não parece ter diminuído a espirituosidade do cineasta.

Indagado se é difícil para ele relacionar-se com a protagonista de 22 anos de seu filme mais recente, ele disse: “Como o filme é sobre uma rapariga loura, tem que incluir uma rapariga loura”.

Oliveira sempre descarta as preocupações comerciais como medida do sucesso, e talvez o verdadeiro segredo de sua longevidade seja seu desejo de continuar a fazer cinema.

“A arte tem a função de ensinar sobre a condição humana. Vivemos na esperança; a esperança é fundamental”, disse ele. “Se tenho a oportunidade de fazer um filme, esse é o melhor presente de aniversário que poderia ganhar.”

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