17 de Fevereiro de 2009 / às 19:27 / em 9 anos

Na falta de patrocínio, criatividade tem que imperar na Sapucaí

Por Pedro Fonseca

<p>Funcion&aacute;ria da Grande Rio trabalha numa fantasia para o Carnaval do Rio de Janeiro. REUTERS/Bruno Domingos</p>

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Em tempos de crise financeira global, as escola de samba do Rio de Janeiro perderam este ano um incentivo que se mostrou fundamental em desfiles recentes -- o patrocínio de empresas e governos dispostos a usar a passarela do samba como plataforma de divulgação.

Entre as 12 escolas do grupo especial, apenas a Grande Rio conseguiu incrementar seu orçamento com uma parceria. Ao levar para o Sambódromo um enredo sobre o ano da França no Brasil, a agremiação de Duque de Caxias reforçou os cofres com cerca de 2 milhões reais pagos por empresas francesas e o governo de Nice.

“Na Grande Rio não sofremos tanto com a crise porque temos 15 empresas francesas que apóiam o nosso Carnaval”, disse à Reuters o carnavalesco da escola, Cahê Rodrigues. “Mas tivemos que mudar alguns materiais, usar a criatividade, para conseguir fechar a conta”, acrescentou.

“Dinheiro não ganha o Carnaval, mas ajuda muito. Você tem a liberdade de usar materiais, usar efeitos especiais, fazer o que você quiser numa escola de samba”, acrescentou.

A Mocidade, que teria patrocínio do governo chileno para apresentar um enredo sobre o país, acabou forçada a trocar de tema após o Chile desistir do acordo. A segunda opção foi falar sobre os escritores Machado de Assis e Guimarães Rosa -- sem nenhum patrocínio.

“Estava tudo acertado, uma equipe nossa chegou a viajar para o Chile, mas depois eles desistiram”, disse por telefone Enildo do Rosário, assessor da Mocidade.

Para o estudioso de Carnaval Hiram Araújo, a falta de patrocínio será sentida pelas escolas, uma vez que o valor repassado às agremiações pela Liesa seria insuficiente.

“O patrocíonio é o melhor caminho para a escola de samba”, disse Araújo à Reuters.

“Sem patrocínio, tem que se virar com os 4 milhões que a Liga repassa. Se quiser fazer um Carnaval de mais luxo, tem que buscar um patrocínio”, acrescentou. Segundo ele, seriam necessários 7 milhões de reais para um desfile ideal.

“SOLUÇÕES CRIATIVAS”

De acordo com a Liga Independente das Escola de Samba (Liesa), cada agremiação recebe anualmente em torno de 3,5 milhões de reais para produzir seus desfiles, provenientes da venda dos direitos de transmissão para a TV, uma parcela dos ingressos vendidos, da venda de CDs com os samba-enredos e de um repasse do governo estadual.

Entretanto, tanto a venda de ingressos e, especialmente, a de CDs, diminuiu nos últimos anos, num movimento contrário ao dos preços de vários produtos importados pelas escolas para suas fantasias e carros-alegóricos.

“Do ponto de vista das escolas, essa valorização abrupta do dólar realmente impactou na compra dos materiais. Isso gerou um impacto que não estava previsto”, afirmou o presidente da Liesa, Jorge Castanheira. Em agosto de 2008, a moeda norte-americana valia 1,60 real, ante aproximadamente 2,30 reais atualmente.

“Certamente as escolas têm que se adaptar, usar materiais alternativos, buscar soluções criativas para driblar a crise”, acrescentou.

No caso dos CDs, a pirataria é o maior vilão. Enquanto há 20 anos se vendia até 1 milhão de cópias dos álbuns com os sambas do ano, esse número em 2009 não deve passar dos 200 mil, de acordo com uma fonte da Liesa.

Para complicar ainda mais, este ano o governo federal decidiu não repetir o investimento de 12 milhões de reais -- 1 milhão para cada escola -- que foi feito no ano passado por meio da Petrobras, informou a fonte.

Segundo reportagem do jornal “O Globo” no domingo, a estatal teria suspendido o patrocínio após ter recebido denúncias de crimes cometidos por dirigentes de escolas. A empresa nega ter recebido qualquer denúncia.

Sem enredos diretamente ligados a patrocinadores, cinco escolas vão trazer ao espetáculo deste ano temas relativos ao Rio e ao Brasil. Na Vila Isabel, o centenário do Theatro Municipal será festejado na passarela; a Imperatriz vai comemorar seu 50o aniversária falando do bairro de Ramos, onde a escola nasceu; a Mangueira tratará do antropólogo Darcy Ribeiro e do DNA brasileiro; a Viradouro falará da Bahia, além do enredo da Mocidade sobre Machado e Guimarães Rosa.

Entre as outras escolas, a Beija-Flor, que busca o tricampeonato, vai narrar a história do banho, enquanto o Império Serrano reeditará as lendas das sereias, apresentado em 1976. A Tijuca falará do espaço; a Porto da Pedra, da curiosidade; o Salgueiro, do tambor; e a Portela, sobre uma história de amor.

Reportagem adicional de Stuart Grudgings

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