ESTREIA-"Rumba" brinca com o humor politicamente incorreto

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009 11:20 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - "Rumba", em estreia em São Paulo, é um daqueles filmes modestos que, na contramão das produções atuais, ignora pirotecnias e investe no talento e habilidade dos atores para fazer humor com pouquíssimos ingredientes. É uma receita simples, prato de bistrô, que atrai um tipo de espectador disposto a se deixar levar pelas gags ingênuas e pelo humor físico, inspirados no cinema mudo.

Impossível não se lembrar do desastrado Monsieur Hulot, personagem do mestre francês Jacques Tati, ao acompanhar as confusões criadas por um casal de professores de uma cidadezinha francesa, Fiona (Fiona Gordon) e Dom (Dominique Abel), que se transformam totalmente ao participar de concursos de dança. Eles treinam suas coreografias na quadra de esportes da escola, continuam as performances em casa e se deixam levar pelos ritmos latinos, a trilha sonora de suas vidas.

Fiona, Dominique e Bruno Romy (que faz um papel secundário no filme) assinam a direção e o roteiro. Fiona, nascida no Canadá, e o belga Dominique Abel trabalham juntos desde os anos 1980, em peças de teatro em Paris. A experiência cinematográfica começou na década de 1990, em três curtas, e foi aprofundada em 2004 no longa "L'Iceberg", já com a participação de Romy.

Um exemplo mais próximo dos brasileiros pode ser enxergado, com alguma generosidade, no grupo Os Trapalhões, que também exibia um humor corporal, explorado por um trio de cômicos com um pé no circo. Mas o grupo francês, apesar de defender um tipo de humor mais popular, sofistica suas tiradas, acrescentando um componente visual que faltava aos cômicos brasileiros.

As cores e as roupas da dupla principal, inspiradas e exageradas nos figurinos dos anos 1950, servem como uma luva para a trilha musical, composta por rumbas alegres que permitem aos dançarinos executar passos sensuais e, ao mesmo tempo, divertidos.

Fiona e Dom trabalham na mesma escola. Ela ensina inglês e ele, educação física. Suas metodologias são, no mínimo, peculiares, mas contam com a aceitação dos alunos que se divertem em aulas que têm tudo para ser chatas. Alunos e professores não veem a hora de soar o sinal para correr para casa e fazer o que mais gostam. No caso de Fiona e Dom, prosseguirem os ensaios para participar de um concurso de rumba, que eles vencerão, como sempre.

Na volta de um deles, envolvem-se em um acidente que vai mudar suas vidas. Ao se desviarem do suicida Gérard (Philippe Martz), que se coloca no meio da estrada à espera da morte, batem o carro. Gérard lamenta não ter morrido, mas se apavora por ter causado o desastre que poderia ter matado os ocupantes do carro. Os dois escapam com vida, mas com graves sequelas: Fiona perde uma perna e Dom, a memória.

No entanto, o que era para ser trágico passa a ser tragicômico, mudando-se o tom para o humor negro e politicamente incorreto. Algumas das melhores sequências estão na volta da dupla para a escola, tentando retornar à normalidade - ela procurando se equilibrar com as muletas e ele nocauteando as crianças num treino de boxe.

As confusões não param aí e só vão se aprofundar na vida desse casal excêntrico, impedido de realizar seus sonhos. Mesmo brincando na difícil trilha do humor politicamente incorreto, o filme não deixa de cercar seus personagens de um grande carinho e de ampará-los nos momentos em que mais precisam. Eles nunca mais serão os mesmos, mas nem por isso precisam ser infelizes.

(Por Luiz Vita, do Cineweb)

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