ESTREIA-"Entre os Muros" mostra dilema de uma França multiétnica

quinta-feira, 12 de março de 2009 13:31 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - A escola como caixa de ressonância da sociedade civil, como instância em que todos os grupos étnicos e sociais se misturam, na tentativa de encontrar um denominador comum. Tudo isso e muito mais flui de "Entre os Muros da Escola", o filme de Laurent Cantet que acabou com o jejum francês de Palmas de Ouro em 2008, depois de 21 anos em branco no Festival de Cannes.

A última premiação francesa ali havia sido em 1987, com "Sob o Sol de Satã", de Maurice Pialat.

Mas, se o filme de Pialat foi vaiado em sua própria terra, o de Laurent Cantet, que entra em circuito nacional, vem encontrando acolhida fraterna por onde passa, começando por Cannes.

Curiosamente, liberais e conservadores endossaram seu retrato, que desafia a fronteira entre ficção e documentário, mas se afirma como ficção. Os primeiros, por entender que seu filme dá visibilidade à inteligência e iniciativa dos adolescentes, evitando tratá-los como idiotas. Os segundos interpretam que o filme faz uma defesa implícita da afirmação da autoridade na escola.

É possível fazer essas e muitas outras leituras da história, que retrata uma escola pública secundária numa periferia de Paris, apoiada num roteiro desenvolvido a partir do livro homônimo e recém-lançado no Brasil do professor François Bégaudeau. O próprio Bégaudeau, aliás, interpreta o papel do professor, cercado de alunos também reais, todos eles recriando situações efetivamente vividas por todos, ainda que parcialmente, em salas de aula.

Esse sabor de vida real dá credibilidade aos dilemas do professor quando enfrenta uma classe cheia de alunos de 14 e 15 anos, das mais diversas etnias, cores, religiões e condições econômicas e ainda acelerados pelo natural turbilhão hormonal de sua idade.

Sintomaticamente, François leciona francês, ou seja, uma matéria essencial a que todos possam comunicar-se e exercer sua cidadania. A linguagem mesma, porém, termina detonando um conflito profundo, envolvendo o professor e uma de suas alunas mais rebeldes, Esmeralda (Esmeralda Ouertani) - a quem, num momento de descontrole, ele termina dizendo que se comporta como uma "pétasse" (vagabunda).

Situações como essa, além da mais dramática, envolvendo um conselho de classe para decidir a expulsão do agressivo Souleymane (Souleymane Franck Keita), povoam "Entre os Muros da Escola", deixando clara uma guerra pela descoberta de novas formas de diálogo, expressão e participação ocorrendo neste momento na França. Uma França que se descobre tendo de lidar com essa complexa herança multicultural que agora impregna a identidade nacional.

O filme de Cantet, diretor de "Em Direção ao Sul" (2005), "A Agenda"(2001) e "Sanguinaires - A Ilha do Fim do Milênio" (1997), tem muito a dizer a outros países também, inclusive o Brasil. As diferenças aqui podem ser outras, mas são igualmente dramáticas. Muitos professores brasileiros, aliás, deverão sentir-se na pele de François, em seus esforços, dilemas e contradições. Que atire a primeira pedra quem nunca perderia a cabeça em situações como as que ele enfrenta.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

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