ESTREIA-"O Visitante" trata de imigração nos EUA pós-11/9

quinta-feira, 12 de março de 2009 13:56 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - No início de "O Visitante", que estreia em São Paulo e Rio, Walter Vale, interpretado por Richard Jenkins, é apresentado de forma sutil: ele está tentando aprender a tocar piano. A professora, uma senhora idosa e paciente, não quer parecer pessimista, mas confessa ao aluno que ele não leva muito jeito com o instrumento. E, na idade dele, o aprendizado se torna mais difícil.

Vale tem um semblante melancólico e, aos poucos, o diretor e roteirista Thomas McCarthy ("O Agente da Estação") libera mais informações sobre o personagem: viúvo e professor universitário, ele leciona apenas uma disciplina no semestre, pois quer se dedicar ao projeto de um livro. Mas não é isso o que vemos. Ele anda de um lado para o outro, sempre triste, sem ânimo nem para curtir a sua dor.

Uma viagem a Nova York mudará esse estado, pois ao chegar ao seu apartamento - que não visita há anos - encontra um jovem casal de imigrantes ilegais que ocupa o imóvel sem que ele saiba.

O sírio Tarek (Haaz Sleiman) e sua namorada senegalesa Zainab (Danai Gurira) dizem tê-lo alugado de uma pessoa que o proprietário não conhece. Mas concordam em sair sem alarde para evitar que Vale chame a polícia. Mais tarde, o professor muda de idéia e, ao vê-los na rua, convida-os para ficar na casa até que encontrem outro lugar.

Embora "O Visitante" siga mais ou menos o caminho da previsibilidade, o desempenho de Jenkins, indicado ao Oscar 2009, consegue prender a atenção do espectador mais do que o desenrolar dos fatos.

Em sua carreira, este ator norte-americano enriqueceu, de forma discreta, inúmeros personagens coadjuvantes, seja em séries de TV, como o pai agente funerário da série "A Sete Palmos", que morre no primeiro capítulo, ou no recente "Queime Depois de Ler", no qual é colega de trabalho de Brad Pitt numa academia. Aqui, no entanto, ele tem a oportunidade de ser o protagonista e elevar o filme a um patamar superior.

A amizade entre Vale e Tarek - Zainab sempre é mais reservada e teme que o americano possa prejudicá-los - mudará a vida do professor. O rapaz, que é músico, ensina-lhe a tocar tambor africano e lhe demonstra sua aptidão para a música, contrariando a opinião da professora de piano. No entanto, a prisão do sírio, por um motivo banal, colocará o protagonista numa verdadeira via crúcis para tentar sua libertação e um visto de permanência no país.

Enquanto trabalha o perfil de Vale, o filme consegue bons momentos e profundidade. Porém, quando a questão política toma a tela, o diretor e roteirista McCarthy mostra certa ingenuidade.

O foco do longa é a política de imigração nos Estados Unidos pós-11 de Setembro. A forma como o filme lida com o assunto é um pouco óbvia - excesso de imagens da Estátua da Liberdade e panfletos em vários idiomas colados pelos postes da cidade. Uma frase em especial, dita pelo personagem de Jenkins, parece resumir o espírito do filme: "Nós não somos crianças indefesas". Realmente, não é esse o caso, mas aqui os norte-americanos surgem mais como crianças inocentes.   Continuação...

 
<p>No in&iacute;cio de "O Visitante", Walter Vale, interpretado por Richard Jenkins, &eacute; apresentado de forma sutil: ele est&aacute; tentando aprender a tocar piano. A professora, uma senhora idosa e paciente, n&atilde;o quer parecer pessimista, mas confessa ao aluno que ele n&atilde;o leva muito jeito com o instrumento. E, na idade dele, o aprendizado se torna mais dif&iacute;cil. REUTERS/Fred Prouser/Arquivo (ESTADOS UNIDOS)</p>